Da captura de carbono na Noruega à dessalinização no Brasil e aos projetos de Portugal, o mar torna-se aliado estratégico contra a sede e o aquecimento global
Num mundo onde a escassez de água já afeta parte significativa da população global, a crise hídrica e climática deixou de ser uma ameaça distante e tornou-se uma realidade presente. Diante desse cenário, o oceano começa a assumir um novo papel: não apenas como ecossistema a preservar, mas como infraestrutura estratégica para o futuro do planeta.
De um lado, a possibilidade de transformar água salgada em água potável. Do outro, a capacidade de armazenar emissões de carbono no subsolo marinho.
Brasil e Portugal, cada um à sua maneira, já estão explorando esse potencial, enquanto a Noruega mostra que a solução já é realidade em escala industrial.
Brasil: transformando o sal em vida
Apesar de concentrar cerca de 12% da água doce do planeta, o Brasil enfrenta um problema estrutural: a má distribuição dos recursos hídricos. Regiões como o semiárido nordestino convivem com secas recorrentes e acesso limitado à água potável.
É nesse contexto que a dessalinização ganha relevância. Fundado em 2004, o Programa Água Doce é uma iniciativa do governo federal voltada para a segurança hídrica no semiárido e tecnologias de dessalinização de água salobra e salina têm sido utilizadas para garantir o abastecimento em comunidades isoladas. De acordo com eles, mais de mil sistemas de dessalinização já foram implementados em comunidades rurais, beneficiando centenas de milhares de pessoas em estados como Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Piauí e o norte de Minas Gerais.
Esses sistemas transformam água subterrânea salobra em água potável, garantindo acesso contínuo em regiões onde a chuva é escassa e irregular. Na prática, funcionam como pequenas estações de tratamento, levando autonomia hídrica a comunidades historicamente vulneráveis.
O avanço para o litoral
O próximo passo já está em curso e aponta para o oceano.
No Ceará, por exemplo, a Companhia de Água e Esgoto do estado, a Cagece, lidera o desenvolvimento da primeira grande planta de dessalinização marinha do Brasil, integrada ao Plano Nacional de Segurança Hídrica.
O projeto Dessal Ceará prevê a utilização da tecnologia de osmose reversa para transformar água do mar em potável, com capacidade estimada de produção de cerca de mil litros por segundo – volume suficiente para abastecer aproximadamente 720 mil pessoas.
Mais do que um projeto de engenharia, trata-se de uma mudança de paradigma: reduzir a dependência de reservatórios como o Castanhão, altamente vulneráveis às secas, e integrar o oceano como fonte complementar de abastecimento.
Segundo dados da Associação Internacional de Dessalinização, mais de 300 milhões de pessoas no mundo já dependem da dessalinização. O Brasil ainda está no início dessa jornada, mas claramente na direção dessa transição.
Portugal: enterrar carbono no fundo do mar
Se no Brasil o oceano ajuda a resolver a sede, em Portugal ele surge como resposta à crise climática.
O país está a desenvolver projetos de captura e armazenamento de carbono (CCS), uma tecnologia considerada essencial pela Agência Internacional de Energia – (IEA) para atingir a neutralidade carbónica até 2050.
A proposta é capturar CO₂ emitido por indústrias pesadas, como cimenteiras, e armazená-lo em formações geológicas profundas no fundo do mar através, por exemplo, de antigas bolsas de gás ou aquíferos salinos profundos e a plataforma continental portuguesa apresenta condições ideais para esse tipo de armazenamento, com potencial para reter grandes volumes de carbono de forma segura.
O projeto-piloto faz parte da estratégia Blue-CCUS, financiado pela União Europeia e desenvolvido em parceria com a DGRM e o INEGI. Previsto para iniciar em até 2030 a cerca de 22 km da costa da Figueira da Foz, com potencial de armazenamento de até 300 milhões de toneladas de CO₂. Além disso, o Porto de Sines está a posicionar-se como um hub energético europeu. A ambição é clara: não apenas reduzir as emissões nacionais, mas também oferecer capacidade de armazenamento para outros países.
O que Portugal começa a estruturar hoje, a Noruega já prova ser possível, transformando o fundo do mar num verdadeiro cofre geológico para o carbono que antes aquecia o planeta.
Noruega: o futuro que já está em operação
A Noruega é referência global em armazenamento de carbono no oceano, com projetos como Northern Lights, iniciado em 2025 com participação da Equinor, sendo a primeira instalação de transporte e armazenamento transfronteiriço de CO₂ do mundo. O país também celebra 30 anos do projeto Sleipner, pioneiro mundial em captura e armazenamento de carbono em aquíferos salinos profundos no Mar do Norte.
Em Northern Lights, o CO₂ é capturado em indústrias europeias, transportado por navio e injetado a cerca de 2.600 metros abaixo do fundo do mar, em formações geológicas seguras. A capacidade atual é de 1,5 milhão de toneladas de CO₂ por ano, com expansão prevista para 5 milhões de toneladas até 2028.
Sleipner: 30 anos de armazenamento de carbono e o olhar da ciência
O projeto Sleipner, iniciado em 1996, foi a primeira instalação comercial de captura e armazenamento de carbono (CCS) no mundo. Em quase três décadas, estima-se que mais de 19 milhões de toneladas de CO₂ foram injetadas na formação salina profunda Utsira, demonstrando que a retenção é segura e estável. Estudos geológicos e sísmicos – com sísmica 3D, sensores e modelagem geológica – confirmam que o CO₂ permanece confinado, sem vazamentos detectáveis, e que as camadas rochosas funcionam como barreira natural, garantindo a preservação do carbono por milhares de anos.
Embora o armazenamento geológico não substitua a redução de emissões, ele se mostra essencial para atingir a neutralidade carbônica. O Sleipner serviu de modelo para projetos no Reino Unido, Holanda e Canadá, e inspirou o Northern Lights na Noruega, mostrando que o oceano pode funcionar como uma infraestrutura confiável para combater a mudança climática.
Ao longo dessas décadas, a ciência consolidou alguns consensos importantes: o CO₂ permanece armazenado de forma estável, preso por camadas geológicas impermeáveis; é possível monitorar o comportamento do gás quase em tempo real, transformando o projeto em um “laboratório vivo”; e os riscos, como fuga de gás ou impactos em aquíferos, são considerados baixos quando bem gerenciados, com seleção adequada de locais e tecnologia de ponta.
Ainda assim, existem limitações e críticas:
- Não resolve a causa do problema muitos cientistas e organizações ambientais argumentam que o armazenamento de carbono não substitui a redução de emissões, apenas mitiga.
- Alto custo e escala limitada projetos como o Sleipner funcionam, mas ainda são caros e difíceis de escalar globalmente no ritmo necessário.
- Risco de “greenwashing” há críticas de que empresas de combustíveis fósseis usam o CCS para justificar a continuidade da exploração de petróleo e gás.
Então, afinal: o CCS é benéfico para o planeta?
A resposta mais honesta e alinhada com o consenso científico atual é:
Sim, pode ser benéfico, mas não sozinho.
Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a captura e armazenamento de carbono (CCS) é uma ferramenta essencial para atingir metas climáticas, especialmente em setores difíceis de descarbonizar, como cimento, aço e indústria pesada.
Mas com uma condição clara: deve ser usado em paralelo à redução real das emissões, e não como substituto.
O oceano como infraestrutura do futuro
O que estamos assistindo é uma mudança profunda de paradigma. O oceano deixa de ser apenas um recurso natural e passa a ser uma solução ativa para os maiores desafios da humanidade.
Seja para matar a sede, capturar carbono ou sustentar novas formas de energia, Brasil, Portugal e Noruega mostram diferentes estágios dessa transformação, mas apontam para a mesma direção: o futuro pode não estar na terra, e sim no mar.
