Uma ONG criada para que nenhuma mãe tenha de escolher entre o cuidado dos filhos e a paixão pelas ondas. Pronta para trocar a culpa pela liberdade do oceano?
A cena é comum: uma mulher olha para o mar com saudade, mas o carrinho de bebé, a agenda de amamentação e, acima de tudo, a carga mental, a mantém na areia. Para muitas mães, o desporto deixa de ser um prazer e passa a ser visto como um “luxo” inacessível. No entanto, a ONG Surfing Moms decidiu que nenhuma mãe deve escolher entre a maternidade e a sua paixão pelas ondas.
O peso da culpa: o que os dados dizem
Um estudo da Sport England trouxe à superfície uma realidade alarmante: 61% das mães revelam que se sentem culpadas por tirar um tempo para fazer exercício físico. Esta “paralisia da culpa” não é apenas um sentimento individual, mas o reflexo de uma sociedade que ainda espera que a mulher anule as suas necessidades em prol do cuidado familiar. É neste cenário que a ONG atua.
A Surfing Moms não existe apenas para surfar; o seu propósito maior é suavizar o isolamento da maternidade moderna. Juntamente com psicólogas clínicas e especialistas em bem-estar, a ONG transformou o desporto numa ferramenta de ‘surf-care’ (cuidado através do surf) como uma prática de bem-estar maternal baseada em investigação.
A origem: a inspiração que cruzou o Oceano
Embora a Surfing Moms (EUA/Havai) e a Surfing Mums (Austrália) sejam entidades independentes, elas partilham o mesmo ADN.
A “irmã mais velha” nasceu em Byron Bay, em 2006, quando as australianas Vanessa Thompson e Julia Hall fundaram a Surfing Mums. Com um modelo focado no voluntariado e no sistema puro de “meet, surf, swap” (encontrar, surfar e trocar), a rede australiana cresceu até atingir os atuais 40 grupos ativos, mantendo uma ligação estreita com a federação nacional Surfing Australia.
Foi precisamente nestas águas que a Dra. Elizabeth Madin, fundadora da vertente americana, encontrou a sua inspiração. Ao viver na Austrália, Elizabeth vivenciou o poder desta rede de apoio e, ao mudar-se permanentemente para o Havai, soube que precisava de adaptar aquele sucesso à realidade americana.
O que começou em 2018 como uma iniciativa entre amigas em Kailua, movidas pelo desejo simples de voltarem a surfar, transformou-se rapidamente. O sucesso foi tão orgânico que, em 2021, a Surfing Moms lançou-se oficialmente como uma organização sem fins lucrativos nos EUA. Elizabeth – que além de surfista é mãe de três e professora de biologia marinha – utilizou o seu hiato forçado após o parto para desenhar um projeto que unisse as suas duas paixões: a saúde do oceano e a saúde das mães.
Hoje, com 33 “huis” (grupos locais) espalhados pelo país, a organização evoluiu para uma gestão profissionalizada, integrando uma estrutura de apoio clínico e programas diversificados que elevam o conceito de comunidade a um novo patamar de cuidado.
Uma abordagem 360º: conheça os programas
A ONG estrutura a sua atuação em cinco frentes principais, garantindo que o apoio à maternidade seja inclusivo e sustentável:
Surf Swap (o programa assinatura): É o coração da organização. O sistema de “troca” onde as mães se dividem entre surfar e cuidar dos filhos na areia. Elimina a barreira do custo e da logística, criando uma rede de confiança imediata. É a materialização do provérbio ‘é preciso uma aldeia para educar uma criança’, mas aqui, essa aldeia encontra-se dentro de água.
Beyond the Swap: A maternidade não acaba quando os filhos crescem. Este programa é dedicado a mães em fases mais avançadas (com filhos mais velhos ou já fora de casa), mantendo a conexão com a comunidade e o oceano através de eventos sociais e surf trips.
Rising Tides: Focado na justiça social e acessibilidade, garante que mães de comunidades sub-representadas ou em situações de vulnerabilidade financeira tenham acesso ao equipamento, às aulas e à comunidade, democratizando o mar.
Coastal Care Initiative: Porque não há mães saudáveis sem um oceano saudável. Este pilar foca-se na educação ambiental e em ações de limpeza de praias feitas pelas próprias famílias, ensinando às crianças o valor da conservação desde cedo.
2026 Art Contest (o programa cultural): Um programa que envolve a comunidade através da criatividade. Convida membros e crianças a expressarem a sua ligação com o mar através da arte, reforçando os laços emocionais e culturais do grupo. O intuito é que seja um evento anual.
Mas o impacto vai muito além da prancha. A organização oferece acompanhamento com psicólogas especializadas, focadas em depressão pós-parto e na transição de identidade que a maternidade exige, além de fisioterapeutas para garantir que o retorno ao desporto seja feito com segurança e respeitando o tempo de recuperação do corpo.
O mar como espaço de cura
O surf é a terapia, mas a comunidade é a cura. Quando uma mãe entra no mar, ela não está apenas a exercitar o corpo; está a recuperar a sua individualidade. E é este “estado de flow” que ajuda a reduzir drasticamente os níveis de cortisol (hormona do stress). Para uma mãe, esse tempo dentro da água vale por semanas de descanso mental.
Como a ONG diz no seu último relatório anual: “o objetivo agora é gerar ondas globais de bem-estar maternal.”
Se não vive perto de um núcleo da Surfing Moms, o conceito de irmandade de apoio pode ser replicado. Junte-se a uma amiga, vizinha ou familiar e criem turnos: “Hoje eu fico com os miúdos para tu ires correr/surfar/nadar, e amanhã fazemos o inverso”. O importante é quebrar o ciclo do isolamento.