Aos 27 anos, a trajetória da campeã de kitesurf nunca seguiu um roteiro linear – e talvez seja exatamente isso que a torna tão interessante
O começo de Sophia Abreu no kitesurf
Nascida no Rio de Janeiro, Sophia Abreu cresceu com o som do mar como trilha sonora. Filha de um surfista e praticante de kitesurf, desde cedo teve o oceano como playground, aprendendo a se conectar com a água e o vento de forma natural.
Antes de se dedicar integralmente ao kite, chegou a quase se tornar jogadora de vôlei federada, mostrando talento e disciplina em diferentes modalidades, mas foi nele que encontrou seu verdadeiro lugar e nunca mais olhou para trás.
Apesar de não ter iniciado o kitesurf na infância – apenas em 2016 – sua evolução foi rápida. Com uma base sólida no surf e familiaridade com o mar, dominou rapidamente as técnicas da modalidade kitewave.
Apenas três anos depois, em 2019, participou da sua primeira competição internacional, o GKA Kite World Tour em Mauritius – conhecido pelas ondas poderosas e condições desafiadoras – e conquistou o 4º lugar, um resultado impressionante para quem ainda estava no início da carreira. Esse feito a colocou no radar do kitesurf mundial e mostrou que, mais do que técnica, ela competia com coragem e estilo.
Ao mesmo tempo, sua trajetória sempre foi marcada por decisões difíceis, mudanças de direção e uma constante busca por alinhamento, como ela compartilhou na entrevista à GOB.
Quando o esporte muda, você também muda
Com o passar dos anos, o próprio esporte começou a mudar. O kitewave, modalidade que sempre foi sua base, passou a dividir espaço com o freestyle strapless dentro do mesmo ranking competitivo, exigindo dos atletas uma performance em dois estilos completamente diferentes.
Para Sophia, essa mudança foi um ponto de ruptura. “Antes era só surfar a onda. Agora são duas modalidades completamente diferentes no mesmo ranking. Para mim, não fazia sentido.”
Com uma base profundamente ligada ao surf, adaptar-se a essa nova lógica deixou de ser apenas um desafio técnico e tornou-se uma questão de identidade. “Eu sempre gostei muito mais de surfar.” diz, e em vez de insistir num caminho desalinhado, ela fez uma escolha difícil, mas consciente: mudar de direção.
Hoje, sua rotina continua intensa, mas com um propósito diferente. Longe da pressão constante das competições, Sophia mantém um ritmo disciplinado de treinos – academia, surf sempre que há ondas, kite quando o vento permite – além de práticas como jiu-jitsu, futevôlei e pesca submarina.
Mais do que preparação, essa diversidade reflete uma escolha de estilo de vida. “Hoje eu treino para estar bem e praticar os esportes que eu amo.” E, entre todos eles, há um que ocupa um lugar especial: “O surf é o que mais me relaxa. É o meu esporte preferido.” É ali que ela encontra equilíbrio físico e mental.
Lições que vão além do pódio
Se a competição deixou de ser o centro da sua carreira, os aprendizados continuam presentes. Ela fala com clareza sobre o que esse período exigiu e ensinou. “A competição me ensinou disciplina, além de treinar, cuidar da alimentação, abrir mão de festa, de noites mal dormidas.”
E essa trajetória competitiva inclui títulos importantes, como o de campeã brasileira de kite em novembro de 2024, que reforça sua experiência e liderança no esporte. Mas talvez a maior lição tenha vindo das derrotas: “Nem sempre a gente ganha. Aprender a lidar com a perda é fundamental.” Essa consciência molda hoje sua forma de encarar desafios com mais maturidade e menos apego ao resultado imediato.
Enquanto o circuito competitivo mudava, outro movimento acontecia fora da água. Sophia percebeu cedo que o esporte também estava se transformando no modo como atletas geram valor. “Hoje, dar visibilidade para as marcas e patrocinadores também traz muito retorno. Não é apenas sobre o pódio.” Com isso, passou a investir na criação de conteúdo, produção de imagem e presença digital. Viagens deixaram de ser apenas treinos ou competições e tornaram-se também oportunidades de trabalho em outro formato.
Mesmo com essa nova perspectiva, a relação com a competição não desapareceu, apenas mudou de forma. Hoje, ela escolhe quando competir, priorizando etapas alinhadas com seu estilo. “Se for uma etapa de onda, que tem a ver comigo, eu volto a competir. Etapas como Peru e Mauritius têm mais a ver com meu estilo.” E mesmo com participações pontuais, os resultados continuam fortes, provando que o talento permanece, agora guiado por intenção e conexão com seu próprio estilo de vida.
Novos caminhos dentro do mesmo universo
Inspirada pela própria trajetória e por uma visão de longo prazo – algo que ouviu desde cedo do pai – Sophia começou a explorar o universo da comunicação. “Meu pai sempre disse que a vida de atleta tem prazo de validade.” Com isso em mente, buscou novas formas de se manter conectada ao esporte. O surf, seu primeiro contato com o mar, acabou sendo a ponte para essa transição.
A oportunidade de atuar como entrevistadora surgiu de forma natural, impulsionada pelo seu conhecimento de bastidores e facilidade de comunicação. “Eu vivi aquilo. Não é só entrevistar, eu entendo o que está acontecendo.”
Hoje, soma experiências em eventos da WSL, do QS da Prainha no Rio de Janeiro em 2025 ao QS do Costão em Florianópolis neste ano, além de trabalhos de mídias sociais para a WSL feitos no Havaí, consolidando-se como uma presença crescente na produção de conteúdo.
Representatividade que acontece naturalmente
Embora seja referência feminina no kitesurf brasileiro, Sophia não carrega esse papel como objetivo. “Eu nem penso muito nisso. Para mim é tão natural só velejar. As vezes esqueço que sou campeã brasileira” Ainda assim, o impacto é real, especialmente nas mensagens que recebe. “É muito legal saber que outras pessoas se inspiram. E eu tento mostrar que é possível viver a vida que você sonha.”
Mas ela faz questão de trazer um contraponto importante: “Não é fácil. Por trás dessa vida tem tudo o que eu renunciei e as pessoas não veem isso.”
Apesar do crescimento do esporte, uma barreira continua evidente: o acesso. “O maior problema do kite é o custo. O equipamento é muito caro.” Essa realidade limita a entrada de novas gerações e evidencia um desafio estrutural.
No fim, é sobre como se vive
Quando pensa no futuro, a atleta não fala em títulos. Fala em vida: “Quero ser lembrada como alguém que aproveitou muito a vida. Estamos cheio de coisas para viver e às vezes esquecemos disso e o tempo passa.”
Talvez sua mensagem mais simples, e mais poderosa, seja também um convite: “Nunca é tarde para começar. As pessoas não precisam se preocupar com idade, peso ou qualquer outra coisa. Qualquer pessoa pode aprender kitesurf ou qualquer outro esporte.”
No fim, entre ondas, vento e decisões, a história de Sophia Abreu não é apenas sobre esporte, é sobre liberdade, escolhas e aproveitar cada momento do caminho.