Entre o saudável e o sustentável: você é mesmo amigo do mar?

Uma reflexão no Dia da Terra

Gostamos da ideia de oceanos limpos, de biodiversidade, de vida marinha livre. Partilhamos imagens, falamos de sustentabilidade, defendemos causas. Mas raramente ligamos essas ideias às nossas escolhas mais simples: aquilo que comemos, que compramos e que normalizamos. E talvez seja exatamente aí que começa o problema.

O polvo no prato… e fora dele

O polvo ocupa um lugar especial na gastronomia, mas quase nunca na conversa ética.

É um animal altamente inteligente e isso não é uma opinião, é consenso científico. 

polvo
Reprodução: diarioviseu.pt

Há estudos que demonstram que os polvos possuem capacidades cognitivas avançadas, incluindo memória, aprendizagem e resolução de problemas, sendo, em alguns contextos, comparáveis às de animais vertebrados. Investigações nesta área reforçam a ideia de que estes animais são sencientes e altamente complexos.

Ainda assim, é pescado em larga escala, muitas vezes sem grande discussão pública.

Organizações como a Sea Shepherd Conservation Society – que inclusive está com campanha aberta para arrecadação de fundos até dia 05/05 – têm vindo a expor aquilo que normalmente não vemos: práticas de pesca intensiva, impactos nos ecossistemas e uma pressão crescente sobre espécies que antes eram consideradas “abundantes”. Porém, o polvo não está isolado, ele é apenas um exemplo de algo maior.

Entre 2022 e 2025, a Campanha de Proteção ao Polvo no Mediterrâneo focou-se na remoção de milhares de armadilhas ilegais, especialmente em Itália e Grécia, para evitar o colapso das populações. Em 2025, a campanha, utilizando o navio MV Sea Eagle, retirou mais de 34.000 armadilhas em apenas 64 dias, salvando 1.584 polvos. Mais do que números, estas ações mostram que é possível proteger o oceano quando decisões conscientes se traduzem em medidas concretas. E quando vemos a realidade, já não é fácil ignorar.

pesca

Um oceano sob pressão

A narrativa de que “há muito peixe no mar” já não corresponde à realidade.

Hoje, cerca de um terço das pescas globais está além dos limites biológicos sustentáveis. E, quando olhamos para espécies usadas para produzir óleo de peixe (base de muitos suplementos de Ômega-3), a situação é ainda mais preocupante: quase metade dessas populações já está sobre explorada. Ao mesmo tempo, a procura continua a crescer.

Consumimos mais peixe do que nunca, produzimos mais suplementos do que nunca e exigimos mais do oceano… do que ele consegue regenerar.

Ômega-3: necessário, mas a que custo?

O Ômega-3 é, sem dúvida, importante para a saúde. Está associado ao funcionamento do cérebro, à saúde cardiovascular e a vários processos essenciais no corpo, mas há uma parte da história que raramente é contada.

Grande parte deste suplemento que consumimos vem de peixes pequenos, como sardinhas e anchovas, espécies que são a base da cadeia alimentar marinha. Sendo assim, surge uma questão crítica:

O que acontece quando retiramos a base de um ecossistema inteiro?

A extração dele a partir do mar não é neutra. Pelo contrário, levanta vários problemas estruturais. Em primeiro lugar, existe a pressão direta sobre os recursos. Estima-se que 90% das reservas de peixe estejam totalmente exploradas, sobreexploradas ou esgotadas. Ou seja, estamos a operar no limite, ou além dele.

omega 3

Depois, há a questão da eficiência. Para produzir óleo de peixe, são necessárias quantidades enormes de matéria-prima. Em alguns casos, são precisos mais de 20.000 kg de peixe para produzir um único lote de óleo. Isto levanta uma questão difícil de ignorar: faz sentido retirar tanta vida do oceano para produzir cápsulas?

Há ainda o problema da captura acidental, o chamado bycatch. Redes que capturam o que não era suposto: tartarugas, golfinhos, tubarões. Centenas de milhares de animais marinhos morrem desta forma todos os anos.

E, por fim, existe a própria cadeia industrial. Desde os barcos de pesca até ao processamento, transporte e encapsulamento, a produção de Omega-3 marinho envolve consumo de combustível, emissões e um impacto ambiental acumulado que raramente entra na equação do consumidor.

Um ciclo difícil de sustentar

Há aqui uma ironia difícil de ignorar: o Omega-3 que procuramos no peixe, não é produzido pelo peixe e sim por microalgas. Os peixes apenas acumulam esse nutriente ao alimentar-se delas.

omega3 algas

Ou seja, estamos a pescar milhões de toneladas de peixe para obter algo que existe, originalmente, num nível muito mais baixo da cadeia alimentar. Ao mesmo tempo, a procura global continua a aumentar e já existem sinais de escassez. Estudos apontam que a oferta de Ômega-3 proveniente do mar pode não acompanhar a procura futura, devido à sobrepesca e às alterações climáticas.

Neste contexto, o Ômega-3 de algas, por exemplo, surge como uma solução mais direta e sem impacto na pesca. No entanto, a sua produção pode exigir recursos significativos, como água e energia, dependendo do método utilizado.

Mas não é a única alternativa. Existem também fontes vegetais acessíveis e já presentes no dia a dia, como sementes de linhaça, chia e nozes, que fornecem precursores de Ômega-3 e podem contribuir para uma alimentação equilibrada.  Apesar de nem sempre substituírem totalmente o perfil dos Ômega-3 marinhos, representam uma mudança importante: reduzir a pressão sobre o oceano.

É sobre fazer escolhas mais conscientes, mais informadas e com menor impacto acumulado. Esse é o primeiro passo para uma consciência de impacto.

Então, o que significa ser amigo do mar?

Talvez não seja sobre deixar de consumir tudo, nem sobre atingir uma forma perfeita de viver, mas é, sem dúvida, sobre deixar de consumir de forma automática. 

Ser amigo do mar implica aceitar que algumas tradições precisam de ser repensadas, que nem tudo o que é saudável para nós é necessariamente sustentável para o planeta, e que cada escolha tem um impacto, mesmo quando não o vemos.

Neste Dia da Terra, a questão não é se gostamos do oceano, é mais desconfortável do que isso: Estamos dispostos a mudar a nossa relação com ele?

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