Maureen Bisilliat, a fotógrafa que traduziu o Brasil profundo em imagens

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Uma inglesa com coração brasileiro e um percurso artístico de quase 7 décadas, que tem como tema central o interior do Brasil e as suas narrativas humanas

Uma educação cosmopolita e a descoberta da fotografia

Sheila Maureen Bisilliat nasceu em 1931, em Englefield Green, Inglaterra, filha de um diplomata britânico e de uma pintora. A infância foi marcada por constantes deslocações, Europa, Estados Unidos e América Latina, num contexto familiar onde a arte e a observação do mundo eram práticas quotidianas. Esta vivência itinerante moldou uma sensibilidade fora do comum e a ideia de pertença como algo construído, não herdado. Uma inquietação que nunca a abandonou, e que acabou por encontrar resposta num país que ela escolheu, e que a escolheu de volta.

Antes da fotografia, foi a pintura que ocupou o centro da sua formação. Estudou com André Lhote, em Paris, e mais tarde na Art Students League, em Nova Iorque, absorvendo referências do modernismo europeu e norte-americano. Em 1957, fixa-se em São Paulo, numa cidade em transformação acelerada, onde o debate artístico e político fervilhava. É no Brasil que a pintura começa a revelar-se insuficiente para a urgência do real que a rodeava. Naturalizou-se brasileira, considerando o Brasil também o seu país, não por obrigação burocrática, mas por convicção.

No início da década de 1960, deixa a pintura de lado e encontra na fotografia um meio mais direto, físico e imediato de relação com o mundo. Não como gesto técnico, mas como mudança ética: a câmara passa a ser instrumento de aproximação, não de distância.

O fotojornalismo e o nascimento de uma linguagem

A entrada no fotojornalismo acontece através da Editora Abril, onde colabora com revistas como Quatro Rodas e, sobretudo, Realidade. Esta última, fundamental na história da imprensa brasileira, permitiu a Bisilliat desenvolver ensaios longos, autorais e profundamente humanos, numa época em que a reportagem ainda admitia tempo, complexidade e ambiguidade.

Os seus trabalhos concentram-se maioritariamente no interior do Brasil, longe dos grandes centros urbanos. Sertões, comunidades ribeirinhas, festas populares, trabalhadores rurais, povos indígenas. O seu olhar recusa o pitoresco e evita o dramatismo fácil. Há uma atenção constante ao gesto, ao corpo, à relação entre pessoas e território. Um dos exemplos mais citados é o ensaio sobre as mulheres que recolhem caranguejos nos manguezais de Pernambuco, imagens onde trabalho, resistência e dignidade coexistem sem romantização.

É neste período que começa a desenhar-se aquilo que Maureen Bisilliat viria a definir como “equivalências fotográficas”. A fotografia deixa de ser apenas testemunho visual para se tornar diálogo com outras formas de pensamento, especialmente a literatura. Não se trata de ilustrar textos, mas de criar correspondências sensíveis entre imagem e palavra, entre experiência visual e estrutura narrativa.

Ver com palavras, ler com imagens

A relação com a literatura brasileira é um dos eixos centrais da sua obra. Autores como João Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Melo Neto tornam-se interlocutores silenciosos do seu trabalho fotográfico. A partir destas leituras, Bisilliat constrói séries de imagens que procuram traduzir atmosferas, tensões e ritmos literários em linguagem visual.

O livro A João Guimarães Rosa (1966) é um marco nesse percurso. Inspirado no universo do escritor mineiro, o projecto percorre o sertão não como cenário, mas como entidade viva, complexa e contraditória. Mais tarde, Sertões, luz e trevas aprofunda esse diálogo com Os Sertões, de Euclides da Cunha, numa leitura visual que recusa simplificações históricas ou simbólicas.

Esta abordagem coloca a sua obra num lugar singular dentro da fotografia documental: não é apenas registo, nem pura interpretação artística. É uma forma híbrida, onde a imagem evoca e o pensamento se constrói visualmente.

O cinema documental como extensão da fotografia

Em 1972, juntamente com Jacques Bisilliat e o arquitecto António Marcos Silva, funda em São Paulo a Galeria de Arte Popular O Bode. O espaço nasce com o objectivo de valorizar a produção artística popular brasileira, num momento em que estas expressões eram frequentemente ignoradas ou subvalorizadas pelos circuitos institucionais. A galeria torna-se ponto de encontro entre artistas, investigadores e coleccionadores, reforçando o compromisso de Bisilliat com a preservação cultural.

A partir do final da década de 1970, o interesse pela imagem em movimento leva-a ao cinema documental. O filme Xingu/Terra, realizado em colaboração com Lúcio Kodato, resulta de uma convivência prolongada com o povo mehináko, no Alto Xingu. Mais uma vez, o método é o mesmo: tempo, escuta e respeito. O cinema surge como extensão natural do seu trabalho fotográfico, aprofundando a dimensão etnográfica e relacional da sua prática.

Ao longo das décadas seguintes, colaborou com o Memorial da América Latina, em São Paulo, integrando a equipa responsável pela formação do acervo e pela concepção do Pavilhão da Criatividade, um espaço dedicado à valorização da diversidade cultural atino-americana.

Reconhecimento institucional e permanência da obra

O trabalho de Maureen Bisilliat foi amplamente reconhecido ao longo da sua carreira. Recebeu, entre outras distinções, uma bolsa da Fundação John Simon Guggenheim, em 1970, e a Ordem do Ipiranga, atribuída pelo Estado de São Paulo, em 2010. Mais do que prémios, estes reconhecimentos consolidam a importância do seu contributo para a cultura visual brasileira.

Desde 2003, o seu arquivo – composto por mais de 16 mil imagens – encontra-se preservado no Instituto Moreira Salles. A integração desse acervo garantiu não só a conservação do material, como a continuidade do seu estudo, divulgação e contextualização através de exposições, publicações e programas educativos.

Maureen Bisilliat ocupa hoje um lugar incontornável na história da fotografia no Brasil. Não apenas pelo que fotografou, mas pela forma como o fez. Hoje, aos 94 anos, ela ainda participa em atividades públicas relacionadas com o seu trabalho e legado artístico – transversalmente marcado pela recusa da pressa, pela ética do encontro e pela convicção de que olhar é, antes de tudo, um acto de responsabilidade.

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