O que acontece quando tiramos o corpo do chão? A professora Catarina Mota responde
Durante muito tempo, o yoga esteve profundamente ligado à terra – à estabilidade e ao contacto direto com o solo. Mas o que acontece quando esse ponto de apoio desaparece?
O aerial yoga, também conhecido como yoga aéreo, propõe exatamente isso: um deslocamento físico que gera, inevitavelmente, uma transformação na forma como percebemos o corpo, o equilíbrio e o próprio movimento.
Mais do que uma prática estética ou “instagramável”, o aerial yoga abre espaço para uma experiência menos óbvia, onde força e entrega coexistem.
Para Catarina Mota, praticante desde jovem, professora de Vinyasa desde 2013 e de Aerial Yoga desde 2016, a suspensão é um portal: “Muda a relação com a confiança. Sem o esforço habitual para descomprimir a coluna, somos desafiados a trabalhar os nossos medos,” explica.
O que é o aerial yoga?
Combina posturas tradicionais do yoga com o uso de um tecido suspenso, preso ao teto. Esse suporte permite inversões com menor impacto, maior amplitude de movimento, exploração de equilíbrio em suspensão e trabalho simultâneo de força e flexibilidade.
A suspensão não é uma invenção recente; é uma herança. Das práticas indianas ancestrais de Mallakhamb ao uso terapêutico de cordas introduzido pelo mestre B.K.S. Iyengar, para superar limitações físicas, o tecido surge como o “prop” (utensílio) definitivo. Para Catarina, essa raiz histórica justifica a eficácia da técnica: ela nasceu para adaptar o Yoga a todos os corpos, usando a gravidade a favor da cura e permitindo que a coluna respire através de uma tração que o chão simplesmente não oferece.
Essa base milenar encontrou uma nova linguagem no final dos anos 90 e início dos anos 2000 através do coreógrafo norte-americano Christopher Harrison. Harrison fundiu o yoga com pilates, dança aérea e treino funcional, criando uma ferramenta capaz de ampliar o movimento humano e reduzir o impacto nas articulações. O resultado é uma prática que utiliza o tecido suspenso para explorar novas possibilidades de consciência corporal, unindo a precisão técnica moderna à profundidade da filosofia oriental.
Hoje, o aerial yoga existe num espaço híbrido – entre o treino físico, a expressão corporal e a exploração da consciência através da respiração e do movimento. Sem o chão como referência constante, o corpo precisa reorganizar-se e ajustar o centro de gravidade, ativando músculos estabilizadores e confiando mais na percepção interna do que no apoio externo.
De acordo com Catarina, “O aerial yoga adapta-se a qualquer pessoa, independentemente do nível. É uma técnica frequentemente recomendada por osteopatas, pois a inversão retira o peso dos pés e descomprime as vértebras de uma forma que não conseguimos no dia a dia.”
Aerial yoga vs yoga tradicional
Embora partilhem princípios comuns como respiração, presença e consciência corporal, as duas práticas diferem profundamente na forma como o corpo é utilizado.
No yoga tradicional, o ponto de partida é o chão. A estabilidade vem do contacto direto com a terra, e as posturas são construídas a partir desse eixo fixo. No aerial yoga, esse eixo é suspenso.
Enquanto o yoga tradicional tende a aprofundar o estado meditativo através da imobilidade e do alinhamento, o aerial yoga introduz uma variável extra: instabilidade controlada. E é justamente essa instabilidade que força o sistema nervoso a reorganizar-se continuamente. O corpo deixa de “executar posturas” e passa a negociar posições.
Nada é totalmente fixo e tudo é ajustável. Essa dinâmica cria uma experiência que não é apenas física, mas também cognitiva, uma vez que o cérebro precisa interpretar continuamente novas condições de suporte, gravidade e orientação espacial.
Catarina deixa um aviso fundamental: a respiração é a base, assim como no yoga tradicional, ou seja, a prática precisa ir além da acrobacia. “É fundamental incluir elementos como Pranayamas (exercícios respiratórios) e Mudras (gestos sagrados), que são a base que sustenta a palavra Yoga,” defende.
Sem esta conexão, a prática perde a sua essência e torna-se apenas um exercício físico. “Sem ela, é apenas ‘aerial fitness’ – o que também é válido, mas o Yoga exige essa presença interna.”
O corpo fora do eixo habitual
À primeira vista, o aerial yoga parece leve, mas, na prática, exige força de core, estabilidade, resistência muscular e controlo respiratório. Para muitos iniciantes, o maior obstáculo não é a força, mas o mental. “O grande desafio é largar o medo do controlo,” afirma Catarina.
No entanto, existe um “momento de virada”: através da respiração, o aluno começa a soltar o desconforto e a prática torna-se prazerosa. “Passado cerca de um mês de prática regular (duas a três vezes por semana), o aluno deixa de focar apenas na técnica e começa a aproveitar a experiência”, explica. É neste ponto que a hamaca deixa de ser um acessório e passa a ser um ninho ou um suporte acolhedor: “Começamos a sentir que somos capazes de voltar a sensações de quando éramos crianças, como dar cambalhotas ou virar ao contrário.”
Embora os benefícios físicos sejam claros, o impacto vai além. Muitas pessoas relatam sensação de liberdade, redução de ansiedade, aumento de foco e presença e reconexão com o corpo.
As inversões, por exemplo, têm um efeito particular na alteração da circulação e criam uma pausa no padrão habitual: “O espaço muda completamente com a anti gravidade, e é preciso confiar”, observa a professora, permitindo que o corpo e a mente se reorganizem fora dos eixos de pressão quotidianos.
Entre controlo e entrega
O aerial yoga não é apenas uma variação do yoga tradicional, é um convite a sair do padrão.
Ao experimentar o corpo fora do habitual e desenvolver força sem rigidez, encontra-se o equilíbrio… mesmo quando ele não é óbvio. O aerial yoga ensina que a estabilidade não vem apenas do chão, e sim da capacidade de se adaptar quando ele deixa de existir.
Para quem quer praticar, Catarina indica: “No mínimo 2x por semana; 3x para uma evolução sólida.”
O percurso de integração de Catarina Mota
Guiada pela intuição e pela busca de harmonia entre corpo e emoção (com formação em Tantra Yoga na Índia), Catarina desenvolveu o ecossistema Move with Elements, onde oferece diversos caminhos para quem quer voar e ir mais além. Seja para aprofundar a prática pessoal ou para começar a ensinar, pode descobrir mais em seu website:
- Teacher Training: Estão a caminho novos treinamentos estruturados para quem deseja uma voz autêntica no ensino do Aerial yoga. Outubro nos Países Baixos e novembro em Portugal.
- Retiros & Imersões: Espaços de renovação em localizações distintas pelo mundo, onde o cenário se torna parte da jornada.
- Classes Regulares: Realizadas em horários e locais fixos, estas sessões apoiam a continuidade necessária para mover, praticar e evoluir, através do movimento guiado.
- Online Shala: Uma biblioteca crescente de cursos acessíveis em qualquer lugar, permitindo que cada um evolua ao seu ritmo.
- Terapias & Bodywork: Sessões personalizadas de massagem e cuidado com o sistema nervoso, focadas no restauro e na libertação.
- Move with Elements World: Um espaço de reflexão com artigos e perspectivas partilhadas sobre o corpo e o movimento.