NeoPilates: a revolução do movimento que está a conquistar a América Latina e o mundo – Entrevista com Amanda Braz

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Há uma nova forma de treinar que combina pilates, treino funcional e movimento lúdico – e que promete transformar corpo, mente e prazer no estúdio (ou em casa)

Idealizado pela fisioterapeuta e Mestre em neurociências Amanda Braz em 2010, o NeoPilates vem conquistando praticantes e desafiando conceitos tradicionais em todo o mundo.

O NeoPilates é mais do que uma variação do Pilates clássico: é uma modernização criativa e científica do método original, concebido para quem procura resultados físicos reais com uma pitada de diversão e desafio. Esta nova vertente combina os princípios basilares do Pilates (criado pelo alemão Joseph Pilates no início do século XX) com treino funcional e elementos inspirados em atividades circenses, criando aulas dinâmicas que trabalham força, equilíbrio, coordenação e consciência corporal num contexto muito mais estimulante e energético.

Na génese desta abordagem está Amanda Braz, fisioterapeuta e investigadora brasileira que combinou formação clínica e visão inovadora para atualizar um método centenário. Criado em 2010, o NeoPilates tem vindo a ganhar terreno por oferecer um gasto calórico mais elevado do que o Pilates tradicional – estimado em até 500 calorias por sessão intensa e por tornar os exercícios mais atraentes do ponto de vista lúdico.

Mas o seu crescimento não se deve apenas à intensidade: o método nasce sobretudo de uma revisão crítica do Pilates clássico, onde ela identificou conceitos que já não se sustentam à luz da ciência atual do movimento. Ao atualizar o método, corrigiu ideias como a necessidade de manter a coluna excessivamente reta ou a contração constante do abdómen, práticas que hoje se sabe poderem ser prejudiciais para alguns corpos. O NeoPilates propõe, em alternativa, movimentos mais orgânicos, adaptáveis e funcionais, respeitando as curvas naturais do corpo e a individualidade de cada praticante, ao mesmo tempo que introduz estímulos variados que desafiam corpo e cérebro de forma integrada.

Como se reinventa um método com mais de 100 anos? A resposta está na conversa abaixo, onde a fundadora explica a origem desta nova abordagem, as suas bases científicas e a sua visão para o futuro do movimento.

O que é que te levou a criar o NeoPilates? O que sentias que estava a faltar?

A minha origem é o método Pilates. Sou fisioterapeuta e atuo com o método Pilates desde 2004. Ao longo desses anos de prática clínica, trabalhando diariamente com alunos e pacientes, comecei a observar a necessidade de novos estímulos para além dos tradicionais. O método Pilates é incrível, tem uma base muito sólida, mas é um método antigo, com mais de 100 anos. Com o tempo, constatei que existiam alguns erros e que algumas das suas premissas já não faziam sentido à luz do conhecimento científico atual — e isso não é uma opinião pessoal, é algo comprovado cientificamente.

Na altura em que desenvolvi o NeoPilates, eu já tinha Mestrado e hoje faço Doutorado. Sempre tive um olhar muito crítico e científico sobre o movimento humano. Nunca fui tradicionalista, porque acredito que acima de qualquer método está a ciência. Qualquer metodologia precisa de atualizações constantes. O meu primeiro grande objetivo foi exatamente esse: atualizar o método Pilates com base nos conhecimentos atuais sobre o movimento, a biomecânica e a neurociência.

A partir daí, comecei a desenvolver novos recursos e equipamentos. O meu irmão é engenheiro mecânico e juntos começámos a discutir e criar soluções diferentes. O próprio Joseph Pilates utilizava diversos equipamentos e criava recursos específicos — por exemplo, ele trabalhava com bailarinas e desenvolveu um equipamento para trabalhar especificamente os pés delas. Se ele tinha essa liberdade criativa, por que eu não poderia ter, ainda mais tendo formação académica, acesso à ciência mundial e às ferramentas que ele não tinha na época?

Além disso, comecei a integrar outras metodologias, como o treino funcional, que trabalha movimentos mais naturais do dia a dia, maior estímulo aeróbico e padrões como agachar, saltar, puxar e empurrar. Foi dessa fusão — Pilates, treino funcional, ciência do movimento e estímulos lúdicos — que nasceu o NeoPilates.

Quando falas em erros do Pilates tradicional, a que te referes exatamente?

Um exemplo muito marcante é a ideia de que a coluna deve ser completamente reta. Isso é totalmente o oposto do que a ciência defende hoje. A coluna possui curvas naturais que são fundamentais para amortecer a força da gravidade. Vivemos constantemente sob essa força, e a coluna funciona como uma mola. Essas curvas não são defeitos, são essenciais.

No entanto, o Joseph Pilates defendia nos seus próprios livros que essas curvas eram resultado de problemas modernos, como má postura, e por isso pregava a retificação da coluna. Isso levava a posturas rígidas, como a postura de bailarina: queixo para dentro, abdómen constantemente contraído, pélvis encaixada. Hoje sabemos que isso não é adequado.

Outro ponto importante é o conceito do powerhouse. O método tradicional defendia a contração constante do abdómen em todos os exercícios. Atualmente, estudos mostram que isso não é indicado para todas as pessoas. Em indivíduos com dor lombar, por exemplo, essa contração pode aumentar ainda mais a dor, porque muitas vezes essas pessoas já têm uma musculatura excessivamente tensa e precisam aprender a relaxar, não a contrair mais.

Além disso, o Pilates tradicional valorizava movimentos muito padronizados e robóticos. Hoje, a ciência do movimento questiona essa ideia de movimento perfeito. Cada pessoa tem uma forma mais adequada de se movimentar. Especialmente na reabilitação, já não se fala em padrão ideal, mas sim no movimento possível, funcional e seguro para cada corpo.

Então dirias que o NeoPilates se diferencia, acima de tudo, por respeitar a individualidade de cada corpo?

Sim, e também por uma vertente lúdica muito forte. Trabalhamos com movimentos mais orgânicos, funcionais e naturais, corrigindo conceitos que hoje já se sabe que estavam errados no método tradicional, e também incorporamos inspirações das atividades circenses, tornando a prática mais divertida e motivadora.

É importante esclarecer que não falamos de circo enquanto espetáculo, mas sim de atividades circenses como inspiração de movimento. Utilizamos alguns recursos e gestos adaptados, sempre respeitando as limitações e necessidades de cada pessoa. Não transformamos ninguém em artista circense (risos). O objetivo é usar esses estímulos para gerar alegria, motivação e prazer no movimento.

Percebi que quando o adulto brinca, quando ele joga, ri e interage, o efeito terapêutico é enorme. O adulto normalmente não se permite brincar. O NeoPilates devolve isso: o prazer de se movimentar, não apenas porque o médico mandou, porque quer emagrecer ou porque sente dor, mas porque a aula é boa, divertida e, ao mesmo tempo, extremamente eficaz e saudável.

Para que perfis de praticantes o NeoPilates é indicado? Existem contra-indicações?

Desde o início, o NeoPilates nunca foi pensado como uma técnica fechada. Ele é bastante livre na prescrição dos exercícios. Sempre defendi a individualização do movimento. Quando o exercício é individualizado, ele pode ser aplicado a qualquer pessoa. Não existem contra-indicações em si. O NeoPilates pode ser praticado por idosos, crianças, atletas, pessoas com dor, em reabilitação ou em prevenção. Ao longo destes anos, sempre trabalhei com todos os públicos. O que muda é a forma como o exercício é adaptado às necessidades, limitações e objetivos de cada indivíduo.

Quais são as principais aplicações clínicas do NeoPilates?

O grande diferencial do NeoPilates é o movimento funcional. Muitas vezes conseguimos simular movimentos desportivos ou do dia a dia. Utilizamos vários equipamentos com base instável, que são fundamentais para desportos como o surf e o skate, que exigem equilíbrio constante.

Essas bases instáveis permitem recrutar musculatura profunda, trabalhar equilíbrio, propriocepção e consciência corporal. Isso é extremamente importante tanto para o rendimento desportivo quanto para a reabilitação, especialmente de membros inferiores — tornozelo, joelho e quadril. A consciência corporal é um dos principais pilares do NeoPilates, assim como já era no Pilates, mas agora trabalhada com muito mais estímulos.

Sendo Mestre em Neurociência, que impacto dirias que o NeoPilates tem a nível cerebral?

O NeoPilates trabalha intensamente a consciência corporal, que é a perceção do corpo no espaço. Para realizar movimentos mais complexos, especialmente em bases instáveis, o cérebro precisa recrutar áreas do córtex motor, gerando novas sinapses e promovendo aprendizagem motora. A base instável é fundamental porque exige respostas rápidas. Se o cérebro não reagir rapidamente, a pessoa cai. Trabalhamos diferentes níveis de instabilidade, em várias posições — em pé, sentado, deitado, ajoelhado. Geramos inúmeros estímulos novos, e isso é essencial. Se repetirmos sempre o mesmo exercício da mesma forma, o corpo passa a ignorar esse estímulo. O corpo precisa ser constantemente desafiado para gerar novas conexões cerebrais. Estímulo novo não é apenas equipamento novo: pode ser mudar a dinâmica do exercício, o tom de voz, a disposição do espaço ou até a música ambiente. Tudo isso altera a conexão cerebral e melhora tanto o movimento quanto a saúde do cérebro.

É possível praticar NeoPilates sem equipamentos?

Sim, é possível, embora de forma mais limitada. Durante a pandemia desenvolvemos muitos exercícios sem qualquer equipamento ou utilizando recursos simples do dia a dia, como cadeiras, lençóis, bolas, skates ou até um aspirador de pó com rodinhas. Também é possível trabalhar em dupla, com uma pessoa estimulando a outra. O NeoPilates é ilimitado nesse sentido. O mais importante não é o equipamento em si, mas a criatividade, o estímulo e a forma como o movimento é proposto.

Hoje em dia, com que regularidade ministras cursos e quais os equipamentos que mais utilizas no teu estúdio?

Atualmente ministro cursos presenciais em São Paulo a cada três meses. Também tenho formações online e professoras que formei que ministram cursos noutras regiões e países.

Ao longo da minha trajetória já desenvolvi mais de 50 equipamentos diferentes. Confesso que me apaixono sempre pelos mais recentes, porque o próprio profissional também precisa de novos estímulos para se manter motivado.

Atualmente trabalho muito com o Neocraft, que é um sistema de caixas com molas extremamente instável, inspirado em jogos como o Minecraft. Com poucas peças é possível criar inúmeras combinações e mundos diferentes de movimento. Gosto de criar o básico, mas fico encantada quando os meus alunos usam a criatividade e desenvolvem novas possibilidades. Muitos partilham comigo nas redes sociais e, muitas vezes, são eles que me inspiram.

Já trabalhei bastante com equipamentos aéreos, como tecidos e liras, que são incríveis e muito versáteis, mas nem sempre adaptáveis a todas as pessoas. Alguns recursos do circo envolvem desconforto, e isso faz parte da lógica circense: a dor como processo de superação. No entanto, no NeoPilates tudo é adaptado, sempre respeitando o corpo e o objetivo terapêutico.

Em que países o NeoPilates está presente hoje?

Para além do Brasil, o NeoPilates está presente na Argentina, França, Austrália, Estados Unidos, Noruega, Angola, Uruguai e Paraguai. A Argentina é, sem dúvida, o país mais forte depois do Brasil. Percebi que o método funciona melhor quando é levado por profissionais nativos de cada país, que entendem a cultura local e vestem verdadeiramente a camisola. Muitos dos núcleos fora do Brasil começaram com brasileiros que emigraram, mas ganham força quando são apropriados localmente. 

Como vês o futuro do NeoPilates?

O NeoPilates completou cerca de 15 anos e mudou muito. Tornou-se mais universal. O próprio Joseph Pilates dizia que, no futuro, o método seria universal e aplicado à vida, não apenas ao exercício. Vejo o NeoPilates a caminhar exatamente nessa direção.

Ele transforma a forma como a pessoa encara o movimento e a própria vida. O aluno chega com medo de se mexer, com medo da dor, e aprende a enfrentar desafios, a cair, a reagir rapidamente. Isso reflete-se fora da aula.

O método cresceu mais do que eu. Espalhou-se por vários países e ganhou vertentes clínicas, acrobáticas e funcionais desenvolvidas pelos meus próprios alunos. Hoje já não tenho controlo sobre tudo — e isso, apesar de assustador, é motivo de muito orgulho.

Continuo a estudar e a investigar. Atualmente estou a aprofundar estudos sobre posições invertidas, algo amplamente investigado por agências espaciais como a NASA, porque simula o que acontece no espaço. O futuro é imprevisível. Quem sabe, um dia, o NeoPilates não venha a ser usado até para treinar astronautas? (Risos)

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