No GOB Books deste mês, selecionamos quatro obras que habitam diferentes territórios, mas convergem num objetivo comum: analisar as estruturas que moldam o ser mulher. Para construir o novo — seja uma carreira, uma comunidade ou uma identidade — é preciso primeiro entender as engrenagens invisíveis que movem o sistema atual e como elas definem o nosso papel na sociedade.
Estes livros ensinam-nos que o feminismo não é um conceito estático, mas uma ferramenta de navegação. Eles mostram que a nossa libertação pessoal está intrinsecamente ligada à forma como ocupamos o espaço público, como gerimos o nosso corpo e como reconhecemos o trabalho de outras mulheres. Ler estas obras é um exercício de desaprendizagem: é retirar as camadas de “dever ser” para encontrar a potência do “ser”.
1. Women & Power: A Manifesto – Mary Beard

Neste manifesto afiado, a historiadora Mary Beard não se limita a apontar que as mulheres estão fora do poder; ela investiga as raízes milenares deste silenciamento. A autora recua até à Odisseia de Homero para mostrar como a voz pública feminina foi, desde a Antiguidade, classificada como uma intromissão ou um ruído a ser controlado.
A visão central deste livro é que o poder não é algo que as mulheres devam simplesmente tentar alcançar ou imitar; é o próprio conceito de poder que precisa de ser redefinido. Enquanto continuarmos a associar autoridade a características tradicionalmente masculinas e agressivas, a liderança feminina será sempre vista como uma anomalia.
Beard convida-nos a questionar: e se o poder não fosse algo para possuir, mas algo para transformar?
O que o livro ensina sobre o papel da mulher: A nossa dificuldade em sermos ouvidas em reuniões ou espaços de decisão não é uma falha individual, mas um eco histórico. A lição aqui é a coragem de não baixar o tom, mas de exigir que as estruturas de escuta mudem.
“Se não conseguimos ver que as mulheres estão dentro das estruturas de poder, então o que temos de redefinir é o próprio poder, não as mulheres.”
2. Um Feminismo Decolonial – Françoise Vergès
Françoise Vergès propõe uma ruptura necessária com o feminismo liberal que ignora as hierarquias de raça e classe. Ela foca o seu olhar naquilo que chama de “trabalho invisível”: as mulheres que sustentam as infra estruturas da sociedade (limpeza, cuidado, alimentação), mas que permanecem à margem dos grandes debates de empoderamento.
A autora desafia-nos a perceber que não existe liberdade real se ela depender da exploração de outras mulheres. A desconstrução de padrões proposta por ela é global e radical, exigindo que olhemos para a herança colonial que ainda dita quem merece ser protegida e quem é considerada descartável no sistema económico atual.
É uma leitura que nos convoca para uma solidariedade mais profunda e consciente.
O que o livro ensina sobre o papel da mulher: O feminismo deve ser uma rede de suporte e não uma escada de competição. Lembra-nos que o papel da mulher na sociedade é coletivo e que o verdadeiro sucesso de uma mulher deve abrir portas para todas as outras, especialmente as mais invisibilizadas.
“Essa ideia de que o mundo se transformaria se mudássemos de mentalidade, se aprendêssemos a aceitar as diferenças, baseia-se em uma concepção idealista das relações sociais. Mas essa ideia é sedutora porque nos impede de agir em relação a essas estruturas.”
3. Além da Pele – Silvia Federici
Para Silvia Federici, o corpo feminino é a última fronteira da resistência. Neste livro, ela explora como, ao longo dos séculos, o corpo da mulher foi transformado numa “máquina de produção” ao serviço do sistema, seja através do trabalho doméstico não remunerado ou das pressões estéticas.
A autora argumenta que reivindicar o prazer, o descanso e a autonomia física é o primeiro passo para qualquer forma real de poder. Entender como fomos ensinadas a ver os nossos próprios corpos como ferramentas é vital para quebrarmos o ciclo de exaustão que a sociedade nos impõe.
É um manifesto sobre a reconquista da nossa primeira casa.
O que o livro ensina sobre o papel da mulher: O autocuidado e o direito ao descanso são atos políticos. Num mundo que espera que a mulher esteja sempre disponível e produtiva, estabelecer limites sobre o próprio corpo é a forma mais pura de feminismo aplicado.
“Por meio da perseguição às “bruxas”, as mulheres que desejavam controlar a própria capacidade reprodutiva, foram denunciadas como inimigas das crianças e, de diversas maneiras, submetidas a uma demonização que persiste até hoje”
4. O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir
Para fechar o quarteto, regressamos ao pilar fundamental da filosofia feminista. Em “O Segundo Sexo”, Beauvoir analisa como a mulher foi construída como o “outro” em relação ao homem, que é visto como o universal.
Através da sua famosa análise, ela desconstrói a ideia de que o destino feminino é ditado pela biologia, provando que ele é uma construção cultural contínua. É o livro que serve de base para todas as outras autoras desta lista, oferecendo as ferramentas intelectuais para percebermos onde terminam as expectativas que o mundo despejou sobre nós e onde começa a nossa verdadeira vontade.
O que o livro ensina sobre o papel da mulher: A distinção vital entre essência e construção. Lembra-nos que não temos de nos encaixar em nenhuma definição prévia de feminilidade e que o papel da mulher na sociedade deve ser definido por ela própria, em plena liberdade de escolha.
“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”
O que estas leituras nos ensinam sobre o feminismo hoje?
Se lermos estes livros em conjunto, percebemos que o feminismo não é um destino, mas um mapa de libertação em camadas.
Mary Beard traz a consciência histórica para entendermos as raízes do nosso silenciamento. Françoise Vergès expande essa visão para uma consciência coletiva, lembrando que a nossa liberdade não pode ser egoísta. Silvia Federici ancora tudo na consciência do corpo, protegendo a nossa integridade física e mental. E por fim, Simone de Beauvoir traz a consciência da essência, permitindo-nos escolher quem queremos ser fora dos guiões sociais.
Este conjunto é um convite à vigilância intelectual e à ação. O papel da mulher na sociedade está em constante redefinição e temos a responsabilidade de ser as arquitetas dessa mudança.
Para sermos autênticas nas nossas decisões e na nossa voz, precisamos de conhecer — e por vezes destruir — as narrativas que tentam ditar o nosso caminho antes mesmo de termos a oportunidade de o escolher.
Deixe que estas páginas desafiem o teu óbvio. Boa leitura!