Durante décadas, muitas pessoas negras enfrentaram a frustração de não encontrar produtos de beleza que realmente funcionassem para as suas necessidades. Tons de pele mais escuros eram frequentemente negligenciados, e cabelo crespo ou afro era tratado como fora do padrão, em vez de ser celebrado e compreendido.
Foi neste vazio que o empreendedorismo negro ganhou força e está a mudar essa realidade. Mais do que criar produtos, estas empreendedoras criaram soluções reais, espaços de representatividade e novas narrativas de beleza.
Hoje, marcas estão a redefinir padrões globais, com autenticidade, conhecimento e propósito, além de gerar impacto econômico, mudança cultural e educação. Os números mostram que essa transformação não é apenas necessária, mas também uma grande oportunidade de mercado.
Maquiagem: quando a inclusão deixa de ser exceção
Durante muito tempo, encontrar uma base adequada para peles escuras era difícil ou até impossível. Isso começou a mudar com marcas que colocaram essa diversidade no centro.
Fenty Beauty – Criada por Rihanna, revolucionou o setor ao lançar uma linha de bases com uma gama ampla de tons desde o primeiro dia, obrigando outras marcas a repensar seus portfólios.
UOMA Beauty – Fundada pela nigeriana Sharon Chuter, combina inclusão com narrativa cultural, trazendo referências à identidade africana e à diversidade global.
Juvia’s Place – Ganhou popularidade pelas suas paletas altamente pigmentadas, especialmente pensadas para peles mais escuras.
Black Opal Beauty – Uma das primeiras marcas direcionadas a peles negras, continua a ser referência para maquilhagem voltada para tons ricos em melanina.
Apesar dessas marcas terem forte inspiração africana e criadoras negras à frente, muitas delas operam com base nos Estados Unidos, o que evidencia o papel do mercado afro‑americano na evolução da indústria de beleza. O Brasil, com uma das populações mais diversas do mundo, também tem marcas que se destacam.
Dandara Cosméticos – Focada em maquilhagem para peles negras, com atenção às tonalidades e acessibilidade.
Cabelo: da pressão para alisar à celebração da textura natural
Durante décadas, normas eurocêntricas incentivaram o alisamento como padrão de beleza. Hoje, há um movimento crescente de valorização do cabelo natural, e as marcas acompanham (e muitas vezes impulsionam) essa mudança.
SheaMoisture – Inspirada nas raízes de Serra Leoa, tornou‑se referência global ao apostar em ingredientes naturais e fórmulas específicas para diferentes curvaturas.
Cantu – Com quase 20 anos no mercado, popularizou produtos acessíveis e eficazes para hidratação e definição de fios texturizados.
Mielle Organics – Fundada por Monique Rodriguez, combina ciência e ingredientes orgânicos com forte ligação à comunidade.
Salon Line – Marca brasileira ganhou destaque com linhas como “Tô de Cacho”, voltadas para cabelos crespos e cacheados.
Soul Power Brasil – Posiciona‑se fortemente na valorização da identidade e textura natural, com comunicação inclusiva.
Lola from Rio – A marca é vegana e cruelty‑free (sem testes em animais) e segue tendências de beleza consciente, muitas vezes com produtos livres de sulfatos e parabenos.
Embelleze Portugal – Trouxe para o país marcas populares entre comunidades com cabelos crespos/encaracolados.
O mercado global e o poder do consumidor negro
O impacto económico dos consumidores negros na indústria de beleza é significativo e os dados da McKinsey & Company confirmam isso.
Nos Estados Unidos, os consumidores negros gastaram cerca de US$ 6,6 bilhões em produtos de beleza em 2021, o que representa 11,1 % do total do mercado de beleza, embora componham apenas cerca de 12,4 % da população. Ainda assim, marcas fundadas por pessoas negras representam apenas cerca de 2,5 % da receita total do mercado de beleza, uma discrepância clara entre poder de compra e participação de mercado.
A mesma análise mostrou que consumidores negros são 3 vezes mais propensos a expressar insatisfação com as opções disponíveis para cuidados capilares, maquilhagem e cuidados com a pele do que consumidores não negros e mesmo em lojas especializadas, apenas 4 – 7 % das marcas disponíveis são fundadas ou dirigidas por pessoas negras, apesar de a preferência por essas marcas ser maior.
Por fim, expandir a representação e equidade no setor de beleza poderia representar uma oportunidade de mercado de cerca de US$ 2,6 bilhões, além de criar consumidores mais felizes e representados, que se sentem vistos, valorizados e conectados com as marcas que compram. Marcas inclusivas não só capturam vendas, mas também fortalecem confiança, lealdade e engajamento, criando relacionamentos duradouros com os seus clientes.
Muito mais do que beleza: um movimento com impacto
O empreendedorismo negro na área da beleza vai muito além da criação de produtos. Ele representa autonomia económica, através da criação de negócios e da geração de riqueza dentro das comunidades, mas também uma representatividade real, onde pessoas negras finalmente se veem refletidas em campanhas, produtos e posições de liderança.
Ao mesmo tempo, contribui para uma mudança cultural profunda, desafiando e redefinindo padrões de beleza historicamente excludentes. Muitas destas marcas assumem ainda um papel educativo, promovendo conhecimento e consciência sobre cuidados com a pele, cabelo e identidade. No fundo, cada marca conta uma história e cada consumidor participa nela.
Beleza como afirmação
Hoje, comprar uma base no tom certo ou um creme que respeita a textura natural do cabelo pode parecer algo simples, mas durante muito tempo, não foi.
O empreendedorismo negro está a redesenhar o mercado da beleza global. Com mais diversidade, mais representatividade e mais inovação, a indústria caminha para um futuro que já não ignora as necessidades de milhões de pessoas e que, finalmente, reflete o que a beleza verdadeiramente é: plural!