Entre o sagrado e o mar, Iemanjá é uma presença que atravessa oceanos e gerações, celebrada com devoção, festa e oferendas. Da nascente num rio africano à grandiosa Festa de Iemanjá nas praias do Brasil, descobrimos a origem, a história e as tradições em redor desta divindade oceânica
Da África Ocidental para o mundo: A origem de Iemanjá
Iemanjá – cujo nome provém de uma expressão da língua iorubá “Yèyé omo ejá”, que significa literalmente “mãe cujos filhos são como peixes” – é um orixá feminino originalmente cultuado no contexto espiritual do povo iorubá, na África Ocidental.
Nesse ambiente ancestral, ela era associada às águas doces, aos rios e à fertilidade, sendo uma divindade poderosa que personificava cuidados maternais, nutrição e vida em comunidade.
Na tradição iorubá, Iemanjá não era apenas um símbolo do mar ou da água, mas representava as próprias correntes da vida, fluindo, criando e sustentando. Filha de Olokun, o soberano dos mares, ela teria se destacado pela sua força e capacidade de proteção, tornando-se, com o tempo, a “mãe de todos os orixás”, figura central num panteão que rege aspetos naturais e humanos essenciais.
Sincretismo: Fé e resistência entre culturas
Quando povos africanos foram forçados à diáspora pela brutalidade do tráfico transatlântico, entre os séculos XVI e XIX, levaram consigo as suas crenças e tradições espirituais. No Brasil e noutras partes das Américas, essas tradições encontraram um ambiente de sincretismo, muitas vezes como resposta à repressão religiosa.
No Brasil, em particular, Iemanjá passou a ser sincretizada com figuras do catolicismo (como Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição), numa estratégia de sobrevivência espiritual que permitiu aos fiéis africanos manterem viva a adoração à sua divindade original sob rostos aparentemente cristãos.
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Este processo de mistura de crenças não só preservou o culto tradicional como o enriqueceu, tornando Iemanjá uma figura reverenciada para além dos terreiros, encontrada em celebrações populares, canções, literatura e na vida quotidiana de milhões de pessoas.
Quem é Iemanjá hoje: Mãe, protetora e símbolo cultural
No imaginário coletivo brasileiro e em outras partes da diáspora africana, Iemanjá é frequentemente descrita como a Rainha do Mar – ela é vista como uma força que rege os oceanos e a vida, a fertilidade, a proteção dos navegantes e dos pescadores, e a manutenção dos laços familiares e comunitários.
A sua representação artística e visual é rica em simbologia: muitas vezes vista como uma mulher de longos cabelos negros, trajando azul e branco, e associada à imagem de sereia ou mãe que surge das ondas. Embora a imagem popular possa variar de região para região, o elemento da água, seja doce ou salgada, permanece central na sua essência.
Além disso, Iemanjá transcendeu a esfera religiosa. Mesmo pessoas que não se identificam com religiões de matriz africana muitas vezes participam nas celebrações em sua honra, reconhecendo nela um símbolo de maternidade universal, proteção feminina e continuidade da vida.
Alguns estudiosos e praticantes consideram-na a fonte da sabedoria ancestral, que conecta passado, presente e futuro, e que reflete a importância fundamental das mulheres e das águas na existência humana.
Na música e na cultura popular, a figura de Iemanjá aparece frequentemente, inspirando canções, poemas e obras de arte. Grandes artistas brasileiros, como Dorival Caymmi e Maria Bethânia, celebraram a Rainha do Mar em canções que evocam a vastidão das ondas e a presença serena da mãe oceânica.
Festas e celebrações: Ritual, música e oferendas
Uma das celebrações mais emblemáticas do culto a Iemanjá realiza-se todos os anos no dia 2 de fevereiro na Praia do Rio Vermelho, em Salvador, Bahia. Milhares de pessoas – devotos, turistas e curiosos – vestem branco e caminham em procissão até ao mar, carregando oferendas que incluem flores, espelhos, jóias, perfumes e outros pequenos presentes que acreditam ser aceites por Iemanjá.
Este momento não é apenas um ritual religioso: é um espetáculo de cores, música, canto e dança. Ao depositarem os presentes no mar, muitos acreditam que Iemanjá ouvirá os seus pedidos – por proteção, amor, prosperidade e saúde – e trará bênçãos ao longo do ano.
Embora 2 de fevereiro seja a data mais conhecida, homenagens a Iemanjá também ocorrem noutras épocas do ano, inclusive no Réveillon, quando milhões de pessoas nas praias brasileiras, como Copacabana no Rio de Janeiro, vestem branco e lançam flores ao mar, pedindo sorte e paz para o ano que começa. Em diferentes cidades e estados, festivais e eventos em honra de Iemanjá também têm lugar, como acontece no Distrito Federal, na Festa da Praça dos Orixás, reconhecida como património cultural imaterial, onde a divindade é celebrada junto a outros orixás importantes das tradições afro-brasileiras.
Em Portugal, embora a tradição não seja tão massiva como no Brasil, Iemanjá também é celebrada de forma crescente junto de comunidades interessadas na cultura afro-brasileira e nas religiões de matriz africana. Em algumas praias portuguesas, grupos de devotos e curiosos realizam pequenos rituais, lançando flores ao mar e entoando cânticos no dia 2 de fevereiro, em homenagem à Rainha do Mar. Cidades como Porto e Lisboa acolhem eventos culturais inspirados na festa brasileira, combinando música, dança e espiritualidade, permitindo que portugueses e migrantes brasileiros se conectem com a riqueza simbólica de Iemanjá e celebrem a força do oceano e da maternidade universal.
A força viva de Iemanjá
Iemanjá é muito mais do que uma divindade do mar ou um símbolo folclórico. Ela representa um elo vivo entre culturas, religiões e histórias, um testemunho da capacidade humana de reinventar, preservar e celebrar aquilo que nos é mais precioso: a vida, o amor, a natureza e a comunidade.
Entre oferendas lançadas ao oceano, cabelos soltos ao vento e cânticos que ecoam na praia, a Festa de Iemanjá continua a encantar e inspirar — um reflexo do poder das tradições afro-diaspóricas de moldar identidades e unir pessoas ao redor de algo maior do que nós mesmos.