Em entrevista à GOB, Ana Pinto Ribeiro partilha como a respiração pode transformar a forma como reagimos, sentimos e nos movemos na vida
Vivemos num ritmo acelerado. Treinamos o corpo, exigimos performance, perseguimos resultados, mas esquecemo-nos do mais básico: respirar.
A respiração é automática, sim. Contudo, quando se torna consciente, transforma-se numa ferramenta poderosa de regulação emocional, foco mental e recuperação física. É aqui que entra o breathwork.
Ele é um conjunto de técnicas de respiração consciente que atuam diretamente sobre o sistema nervoso e o estado emocional. Através de padrões específicos — mais lentos, mais profundos, ritmados ou, em alguns métodos, mais intensos — é possível reduzir níveis de stress e ansiedade, melhorar o foco e a clareza mental, aumentar a energia, apoiar a recuperação física e até libertar tensões emocionais acumuladas no corpo.
Breathwork e suas origens
O breathwork não surgiu como uma tendência recente de bem-estar. As suas raízes são antigas. Práticas de respiração consciente existem há milhares de anos em tradições orientais como o pranayama, no yoga, onde a respiração é vista como veículo de energia vital (prana). No budismo e no taoísmo, técnicas respiratórias também sempre fizeram parte de práticas meditativas e de equilíbrio interno.
No Ocidente, o interesse moderno pela respiração consciente começou a ganhar força no século XX, especialmente a partir dos anos 1960 e 1970, com o surgimento de métodos como o Rebirthing Breathwork fundado por Leonard D. Orr e a Respiração Holotrópica, desenvolvida pelo psiquiatra Stanislav Grof, posteriormente sistematizada e difundida através das suas publicações, como este livro.
Estas abordagens exploravam a respiração como ferramenta terapêutica e de expansão da consciência.
Mais recentemente, nas últimas duas décadas, o breathwork foi integrado ao universo da performance, da psicologia do stress e da medicina preventiva, impulsionado por estudos científicos sobre o sistema nervoso autónomo e pela popularização de métodos como o de Wim Hof.
Hoje, a prática é adotada tanto em contextos terapêuticos quanto no desporto, na alta performance e na gestão emocional.
E a ciência explica o porquê: a respiração está diretamente ligada ao sistema nervoso autónomo, que regula funções como frequência cardíaca, pressão arterial e resposta ao stress. Respirações rápidas e superficiais tendem a ativar o sistema nervoso simpático, responsável pelo estado de alerta. Já respirações lentas e profundas estimulam o sistema parassimpático, associado ao relaxamento e à recuperação.
Assim, o breathwork não é simplesmente “respirar fundo”. Trata-se de uma prática estruturada que influencia mecanismos fisiológicos reais, ajudando o corpo a sair do modo de sobrevivência e a entrar num estado de maior equilíbrio.
Os pilares do Breathwork na vida moderna
Num contexto marcado por sobrecarga de informação, exigência constante e níveis elevados de stress, a respiração consciente emerge como um recurso acessível, mas profundamente transformador. Três áreas, em particular, revelam o seu impacto: autorregulação emocional, performance cognitiva e libertação de trauma.
Autorregulação emocional
Vivemos num ambiente que estimula respostas rápidas e reativas. Notificações constantes, pressão profissional, exigências familiares e sociais ativam repetidamente o sistema de alerta do corpo. Muitas vezes reagimos antes de refletir. É aqui que o breathwork atua como um verdadeiro amortecedor entre o estímulo e a resposta.
Ao desacelerar e aprofundar a respiração, enviamos ao sistema nervoso um sinal claro de segurança. Esse simples ajuste fisiológico cria um espaço interno — alguns segundos preciosos — onde a escolha substitui o impulso. Em vez de responder com irritação, ansiedade ou defesa, tornamo-nos capazes de observar a emoção e regulá-la.
A prática consistente fortalece essa capacidade. Não se trata de suprimir emoções, mas de desenvolver maturidade nervosa: sentir sem ser dominado, reagir sem perder o centro. Com a inteligência emocional sendo cada vez mais valorizada, a respiração consciente torna-se uma competência fundamental.
Performance cognitiva
O cérebro consome uma quantidade significativa de oxigénio para funcionar de forma eficiente. Padrões respiratórios superficiais e acelerados, comuns em estados de stress crónico, reduzem a qualidade da oxigenação cerebral e mantêm o corpo em alerta constante. Isso compromete a clareza mental, memória e capacidade de decisão.
Ao trabalhar padrões respiratórios mais amplos e ritmados, melhora-se a variabilidade da frequência cardíaca e a circulação de oxigénio, promovendo maior estabilidade mental. O resultado é um estado de foco relaxado — uma combinação rara, mas ideal para produtividade sustentável.
Em contextos de liderança, desporto ou ambientes de alta exigência, essa regulação faz diferença concreta. Decisões tornam-se mais estratégicas, a criatividade flui com menos bloqueios e a capacidade de manter presença sob pressão aumenta. O breathwork deixa de ser apenas uma prática de bem-estar e passa a ser uma ferramenta de performance.
Libertação de trauma
Talvez o pilar mais profundo e menos compreendido do breathwork seja a sua capacidade de apoiar processos de libertação emocional e integração de experiências passadas. O corpo armazena tensão. Situações de stress intenso, traumas ou experiências não processadas podem ficar registadas no sistema nervoso mesmo quando a mente já “seguiu em frente”.
Práticas respiratórias mais profundas e estruturadas — conduzidas com segurança e acompanhamento adequado — permitem aceder a camadas mais somáticas da experiência. Ao alterar o padrão respiratório, ativa-se o sistema nervoso de forma controlada, criando condições para que o corpo processe e liberte tensões acumuladas.
Não se trata de reviver memórias de forma dramática, mas de permitir que o organismo complete respostas que ficaram interrompidas. Muitas vezes, emoções surgem sem uma narrativa clara, uma vez que o corpo expressa o que a mente racional não consegue nomear.
Neste sentido, o breathwork funciona como uma ponte entre fisiologia e consciência. Ao restaurar padrões respiratórios naturais e regulados, ajuda-se o sistema nervoso a sair de estados crónicos de hiper ou hipoativação, promovendo integração e estabilidade.
A prática não serve apenas para “acalmar”. No contexto da transformação integrativa, respirar bem nos dá a presença necessária para estabelecer limites.
Quando estamos regulados, conseguimos dizer “não” sem culpa e “sim” com intenção, protegendo a nossa energia vital. Respirar é automático. Respirar com intenção é transformação. Devolve-nos presença. E talvez seja aí que começa a verdadeira performance.
Como começar
Começar pode ser simples. Alguns minutos por dia de respiração consciente já criam diferença. Inspirar profundamente pelo nariz, expandindo o abdómen, e expirar de forma lenta e prolongada ativa o sistema parassimpático e envia ao corpo um sinal claro de segurança. É um treino de regulação. Um reencontro com o próprio ritmo.
Mas, em certos momentos, ir além da prática individual pode ser transformador. A experiência guiada permite aprofundar o processo, explorar padrões mais intensos e, sobretudo, criar um espaço seguro para libertar tensões acumuladas, com movimento consciente.
É precisamente essa proposta que Ana Pinto Ribeiro traz no evento DARE TO BREATHE, que acontece no sábado, 28 de fevereiro, das 9h às 13h, no Dhara by Sadhana, em Lisboa. Nesta experiência, o breathwork e a dança consciente unem-se para libertar, expandir e reorganizar por dentro. As vagas são limitadas — e talvez esse seja o convite mais importante: reservar tempo para respirar com intenção, não como performance, mas como reconexão.
Leia abaixo a entrevista de Ana Pinto Ribeiro para a GOB
Como descreve o breathwork que facilita — em termos práticos e experienciais — e em que difere de outras técnicas de respiração mais conhecidas?
Sabe, mais do que uma técnica, eu vejo o breathwork que facilito como uma espécie de regresso a casa, é uma porta de entrada para a consciência profunda e para o corpo emocional. Não é apenas inspirar e expirar com um objetivo rítmico. Integra os princípios do método Awareness Facilitator, onde usamos a respiração para abrir portas que muitas vezes nem sabíamos que estavam fechadas.
Na prática, é um mergulho guiado. Sim, usamos a respiração conectada, o som e o toque, mas o foco está todo na escuta e observação do próprio corpo. Outras técnicas podem ser muito mecânicas, quase como um exercício de ginásio para os pulmões. Aqui, o corpo é quem manda. Se há uma tensão no peito ou um nó na garganta, não tentamos corrigir. O que fazemos é tentar perceber que história é que esse bloqueio está a tentar contar. É muito menos sobre o fazer e muito mais sobre o permitir.
O que acontece no corpo e no sistema nervoso durante uma sessão de breathwork que permita desbloqueios emocionais ou estados alterados de consciência?
É fascinante o que acontece lá dentro. Quando alteramos o padrão respiratório de forma consciente e contínua, mexemos diretamente no nosso painel de controlo, que é o sistema nervoso autónomo. Saímos daquele modo de sobrevivência constante, o lutar ou fugir, e entramos num estado de reorganização profunda.
Existe uma mudança química real nos níveis de CO2 e no pH do sangue que acaba por abrandar as nossas ondas cerebrais. É aí que a magia acontece. Acedemos a estados teta ou gama, onde a mente racional descansa e o inconsciente ganha voz. É como se déssemos um reset ao sistema. Emoções que estavam ali congeladas ou guardadas num canto do corpo podem finalmente ser processadas e libertadas. O corpo retoma a sua sabedoria natural de se autorregular, sem que a cabeça precise de explicar tudo o que está a sentir.
Que tipo de processos ou temas surgem com mais frequência nas pessoas que acompanha através do breathwork? Há padrões recorrentes?
Há padrões que batem quase sempre à porta. Vejo muita gente que vive num corpo couraça, que aprendeu a aguentar tudo e a fechar-se para conseguir sobreviver. Surgem muito os temas da infância, as falhas de amparo, o medo de perder o controlo ou aquela vergonha de sermos quem somos.
Mas o que mais me toca é que, por trás de tanta dor e contenção, quando a respiração abre caminho, o que surge é uma memória profunda de liberdade. É como se a pessoa se lembrasse de repente: “Ah, eu sou isto! Eu posso sentir isto!”. A respiração acaba por ser o fio condutor que nos traz de volta à nossa verdade essencial, limpando as camadas e as autoimagens que já não nos servem.
Como garante um espaço seguro — emocional e físico — quando trabalha com respiração consciente, sobretudo em contextos de grupo?
A segurança começa na minha própria presença. Se eu estiver aterrada e presente, isso cria um campo onde o outro se sente seguro para se desmoronar, se for preciso. Antes de qualquer respiração, estabelecemos um contrato de confiança, com muita clareza de intenções e limites.
Em grupo, estou sempre a ler a energia, não só o que dizem, mas como se movem e como respiram. Uso muito o conceito de pendulação, que é algo que aprendi com o trabalho de Peter Levine. Basicamente, não vamos diretos ao trauma de cabeça. Vamos oscilando entre o que é intenso e o que é seguro, para que o sistema nervoso dos participantes possa transitar com segurança entre a ativação e a integração. O objetivo é sempre integrar, nunca sobrecarregar.
Na sua experiência, que papel pode o breathwork ter na integração de processos pessoais mais longos, como terapia, mudanças de vida ou práticas espirituais?
Eu vejo o breathwork como a cola viva que une tudo. Às vezes passamos anos em terapia a entender as coisas mentalmente, mas o corpo continua a reagir da mesma forma. A respiração traz essa compreensão para a carne e para as células.
Seja numa separação, num luto, numa mudança de carreira ou numa busca espiritual, precisamos de um corpo que esteja disponível para sentir a vida. A respiração é a ponte mais curta entre o eu que criámos para sobreviver e o nosso eu essencial. É devolver a alma ao corpo e voltar ao que é simples e verdadeiro, que é o aqui e o agora.