Portugal detém uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas do mundo – faixa marítima que se estende até 200 milhas náuticas (cerca de 370 km) da costa de um país – mas durante séculos olhámos para o mar quase exclusivamente em busca de recursos extrativos. No entanto, para além da pesca tradicional, o nosso oceano esconde ecossistemas vitais, como as florestas de algas: verdadeiros bosques subaquáticos que garantem o equilíbrio do planeta e o qual já abordamos neste outro post.
É neste cenário de urgência ambiental e potencial inexplorado que surge a Rota das Algas. Fundado pela bióloga e chef Joana Duarte, o projeto transforma esta visão, provando que a sustentabilidade marinha começa na literacia e termina na nossa ligação profunda com o território.
O perfil da mentora: ciência e fogo
A autoridade do projeto assenta no percurso singular da sua fundadora. Joana Duarte é licenciada em Biologia Marinha e Biotecnologia pelo IPLeiria e Mestre em Oceanografia pela Universidade de Cádiz. Iniciou a sua carreira no IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera, investigando recursos pelágicos como a sardinha e a anchova, mas a sua busca pela tradução prática desse conhecimento levou-a a Barcelona.
Ali, formou-se em cozinha na prestigiada Escola Hoffmann. Com mais de 17 anos de experiência em restaurantes estrelados e conceitos de fine dining, a Joana cruza hoje o laboratório com o fogão, criando uma ponte inédita entre a investigação científica e o património imaterial das comunidades costeiras.
Um manifesto de literacia e património
A Rota das Algas é um projeto de literacia dos oceanos que atua ao longo da costa continental e das ilhas, promovendo o conhecimento e o uso sustentável das macroalgas enquanto recurso ecológico, alimentar e cultural. O projeto articula expedições no litoral que ensinam a “ler” o ecossistema entre-marés, iniciativas que aumentam a literacia científica e sensibilizam para a fragilidade dos ecossistemas marinhos, além das experiências gastronómicas que usam a alga como protagonista, unindo a biologia à técnicas culinárias.
Porto de Pesca: a homenagem às comunidades
Um dos braços mais vibrantes do projeto é o Porto de Pesca. Realizado nos portos do litoral português, este é um espaço dedicado à valorização das comunidades piscatórias e à integração das algas nos saberes tradicionais.
Este programa promove o diálogo entre tradição e inovação através de encontros interdisciplinares, que reúnem pescadores, cozinheiros, artistas e investigadores. Abordam também as vivências partilhadas através de refeições comunitárias, exposições e conversas que honram as pessoas do mar e a sua relação profunda com os recursos marinhos, garantindo a transmissão de conhecimento entre gerações.
Colaborações de elite: da Gulbenkian ao ecrã
A versatilidade da Rota das Algas reflete-se na diversidade dos seus palcos:
- Fundação Calouste Gulbenkian: Participação na programação cultural (2025), elevando a literacia oceânica ao debate intelectual contemporâneo.
- Out of the Blue (Matosinhos): Focado na gestão sustentável dos oceanos e na alimentação do futuro, o evento é o palco ideal para a visão interdisciplinar de Joana (2024/2025).
- Atlantic Wild Wisdom (Memmo Baleeira): Uma imersão que funde natureza e gastronomia (2025).
- Cultura Visual: Protagonismo no Episódio 1 da série documental “Movimento”, de João Kopke (2024), que ilustra a estética e a ética do projeto. Como pode ver abaixo:
A experiência: habitar a maré
Para quem procura ir além da teoria, a Rota das Algas oferece um percurso interpretativo de cerca de 3 horas durante a maré vazia. É uma aula viva de oceanografia, ecologia e astronomia aplicada, onde se aprende a identificar e colher espécies como a Alga Trufa ou o Codium de forma responsável e saborosa. São grupos de até 6 pessoas e o local é itinerante pela costa portuguesa e ilhas.
O mar como identidade
Quando uma mestre em oceanografia e chef de cozinha nos convida a baixar o corpo para observar a vida que pulsa numa rocha molhada, o que ela nos oferece é um novo alfabeto para ler o nosso próprio país. A Rota das Algas recorda-nos que a verdadeira economia azul não se constrói apenas com tecnologia de ponta ou relatórios de sustentabilidade, mas com o fortalecimento dos laços invisíveis entre as pessoas e a água.
Habitar a maré e entender o ritmo da Lua não são exercícios de nostalgia; são ferramentas de sobrevivência e consciência. Ao trazer as algas para o centro da mesa e o porto de pesca para o debate, Joana transforma um recurso botânico num manifesto político e cultural. Ela prova que o futuro da nossa resiliência alimentar está, literalmente, debaixo dos nossos pés. Proteger o oceano deixa de ser uma escolha ecológica abstrata para se tornar algo mais urgente, como a preservação da nossa própria essência, moldada pelo sal e pela persistência de quem sabe que o mar é, e sempre foi, o nosso caminho.