WORLD SKATE TOUR SP: o futuro do skate e o que mundial das 4 rodinhas nos ensina

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A Girls On Board acompanhou de perto o Campeonato Mundial de Skate em São Paulo que aconteceu entre os dias 1 e 8 de março no Parque Cândido Portinari. O que presenciámos não foi apenas uma sucessão de baterias, mas a confirmação de que o skate completou a sua transição definitiva. O desporto que outrora habitou a margem da sociedade, hoje opera com a precisão de uma modalidade de elite, atraindo marcas de luxo e uma juventude que encara a pista como um laboratório de alta performance.

O evento destacou-se por uma estrutura técnica que se posiciona entre as melhores do circuito global, superando em organização e infraestrutura muitos eventos internacionais de renome. Mas o verdadeiro diferencial técnico foi impulsionado pela alma do evento: a energia contagiante do público brasileiro. Enquanto em outros países o silêncio e a análise predominam, em São Paulo cada manobra era celebrada com um rugido que transformava a pressão em combustível. Esse “vibe” única não só elevou o nível dos atletas, como provou que o Brasil é, hoje, o coração pulsante do skate.

Não podemos deixar de mencionar a capacidade de adaptação da organização e dos atletas. A chuva em São Paulo não foi apenas um detalhe; ela forçou interrupções, alterou a dinâmica e mudou radicalmente a aderência da pista. Mais do que um obstáculo logístico, este desafio tornou-se uma vitrine da resiliência exigida por todos, como um belo exercício de flexibilidade e de como manter o foco quando tudo muda de repente. 

Estar presente no evento permitiu-nos ver que os resultados não foram apenas números, mas reflexos de estratégias muito bem traçadas. Aqui estão os principais destaques do que realmente moveu as pistas nestes dias:

Paraskate: a verdadeira aula de visibilidade

A estreia oficial do Paraskate foi, sem dúvida, o momento mais emocionante. Mesmo que na mesma modalidade tenha diferentes deficiências a competirem juntas, os atletas deram aula de união. Esta integração não trouxe apenas um novo fôlego técnico; trouxe uma visibilidade necessária. Ver a resiliência de atletas que adaptam o seu centro de gravidade e os seus shapes para superar obstáculos prova que o skate é, na sua essência, uma ferramenta de liberdade.

O “efeito Rayssa” e o mercado de luxo: o topo de uma linhagem

Estar lá permitiu-nos sentir o fenómeno Rayssa Leal de perto. Ela conseguiu algo que parecia impossível no skate: criar um “fã-clube” fervoroso, organizado e jovem, que consome o desporto com a mesma paixão do futebol. Esse magnetismo atraiu marcas de luxo que agora ocupam o setor com uma força inédita, elevando o status aspiracional da modalidade. Não foi por acaso que vimos Rayssa dar um espetáculo na pista usando um cinto da Louis Vuitton; ela é a primeira brasileira a se tornar embaixadora global da marca francesa. O skate agora é premium, é moda e é entretenimento de massas.

No entanto, este cenário de prestígio e patrocínios globais é o resultado de uma porta que foi aberta à força por outras mulheres. O crescimento do skate feminino que celebramos hoje em São Paulo deve muito a pioneiras como Letícia Bufoni, que profissionalizou a imagem da skater feminina e a levou para o mainstream mundial, e Karen Jonz, que com os seus quatro títulos mundiais e voz ativa, foi fundamental para que as mulheres tivessem voz e espaço nas competições.

Ao lado delas, nomes como Yndiara Asp, Dora Varella e Pâmela Rosa continuam a expandir esse legado, provando que o foco atual das grandes marcas não é apenas um “momento”, mas o reconhecimento de uma trajetória de décadas de luta por espaço e igualdade técnica. Nem mesmo a lesão da Rayssa (que nos deixou com o coração apertado) ou as chuvas que afetaram a dinâmica das baterias, diminuíram o brilho de um evento que consagrou o skate feminino como o setor que mais cresce e se valoriza no mercado desportivo atual.

Os protagonistas da pista: quem dominou São Paulo

O nível técnico em São Paulo foi um reflexo da nova era do skate, onde a disciplina nipónica e a resiliência brasileira ditaram o ritmo. Observar a equipa japonesa foi uma aula de humildade e foco. Eles operam num nível de excelência e técnica maravilhosos, fruto de uma disciplina que a nova geração está a abraçar com força. Vimos miúdos e miúdas a trazerem novas manobras e uma precisão que só um atleta de alto rendimento, com foco total consegue entregar.Eis os nomes e pódios que marcaram este Mundial:

Mundial de Street: precisão e superação

Masculino: O japonês Toa Sasaki sagrou-se campeão com uma linha impecável. O pódio foi completado pelo peruano Angelo Caro com prata e pelo também japonês Sora Shirai com bronze. Vale destacar a performance de Giovanni Vianna, que liderou as classificatórias com autoridade, e a garra de Lucas Rabelo, que esteve na briga até o fim.

Feminino: A vitória ficou com a japonesa Ibuki Matsumoto, liderando um pódio inteiramente nipónico com Nanami Onishi e Coco Yoshizawa. O grande susto foi a nossa Rayssa Leal: a “Fadinha” torceu o joelho no último treino oficial. Mesmo com dores e proteção, ela mostrou por que é uma gigante ao avançar até a final, terminando num honroso 4º lugar que soube a vitória pessoal. Além dela, Gabi Mazetto brilhou com um desempenho fortíssimo nas quartas de final, e Pâmela Rosa mostrou a sua habitual resiliência em pista.

Mundial de Park: o coração na vertical

Masculino: Num duelo de titãs, o espanhol Egoitz Bijueska levou o ouro, mas o Brasil dominou as atenções. O brasileiro Kalani Konig conquistou a prata, tornando-se vice-campeão mundial, seguido do norte-americano Tom Schaar. Ícones como Pedro Barros e Thomás Augusto trouxeram a experiência e o “style” característico da escola brasileira, mantendo a plateia em êxtase e provando que o Park nacional continua entre os melhores do mundo.

Feminino: A britânica Sky Brown reafirmou o seu domínio com o bicampeonato. A prata ficou para a japonesa Mizuho Hasegawa e o bronze foi para a norte-americana Minna Stess. Contudo, as brasileiras deram um espetáculo à parte: Dora Varella e Yndiara Asp mostraram uma evolução técnica incrível, voando alto e garantindo posições de destaque. Raicca Ventura também confirmou ser um dos nomes mais promissores da nova geração, elevando o nível das transições. 

Paraskate: inclusão no topo

O Paraskate no Cândido Portinari não foi uma novidade para quem acompanha o STU, que sempre abriu as portas e deu palco para a modalidade. No entanto, desta vez, a atmosfera era de “decisão histórica”. A grande conversa nos bastidores e nas bancadas foi a consolidação do Paraskate como uma modalidade que já reúne todas as condições para integrar o programa das Olimpíadas. Ver o nível técnico aqui em São Paulo serviu para contar pontos preciosos nessa jornada de reconhecimento internacional.

Paraskate Street: Felipe Nunes foi ouro, o fenômeno que continua a redefinir os limites do que é possível sobre o skate. a prata ficou com Enquanto Kauê Augusto; com sua onsistência e fluidez. Por fim, o bronze foi de David Soares fechando um pódio que transbordou talento verde e amarelo.

Paraskate Park: O pódio foi uma celebração da técnica nacional, com Vini Sardi conquistando o topo, seguido com a prata de Robert Almeida e o veterano Ítalo Romano com bronze. A performance de Robert foi um dos grandes destaques.

O que trazemos connosco?

Saímos de São Paulo com a clareza de que o skate hoje é um ecossistema profissional, vibrante e, acima de tudo, uma potência económica e social. A parceria entre a World Skate e o STU elevou o patamar do evento no Brasil para um nível de infraestrutura que poucas vezes se viu no circuito internacional. Não estamos mais a falar de um encontro de nicho, mas de uma operação logística de elite que recebeu 365 atletas vindos de 49 países, consolidando São Paulo como o hub estratégico do skate na América Latina.

A importância deste Mundial acontecer em solo brasileiro vai muito além das medalhas. Com cerca de 8,5 milhões de praticantes no país (segundo dados recentes da CBSk), um evento desta magnitude profissionaliza toda a cadeia: desde o shaper local até à entrada definitiva das marcas de luxo e patrocinadores globais. O impacto positivo para o skateboard brasileiro é direto: infraestruturas de classe mundial que ficam como legado e a validação do skate como uma ferramenta social poderosa, capaz de gerar emprego, turismo e desenvolvimento.

A juventude está a todo o vapor, a ditar as regras e a mostrar que o desporto pode ser lucrativo e tecnicamente impecável sem perder a sua essência. O skate saiu definitivamente do viés de “coisa de maloqueiro” para se tornar um esporte de alto rendimento, onde o atleta é um estrategista da sua própria carreira. A Girls On Board continua de olhos postos nestas mudanças, celebrando a evolução de uma cultura que agora domina o mundo e profissionaliza o futuro.

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