Atletas extraordinários, conquistas memoráveis e histórias que emocionaram o mundo neste inverno paralímpico

Enquanto as luzes se apagam nas montanhas italianas, os Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 deixam para trás muito mais do que medalhas e recordes. Para nós é o momento de fazer um balanço de um dos eventos mais visualmente impactantes e tecnicamente exigentes do desporto.
Realizados entre 6 e 15 de março de 2026, os Jogos reuniram cerca de 665 atletas de 57 nacionalidades, transformando as paisagens alpinas em palco de uma competição onde tecnologia, natureza e capacidade humana se encontram..
Nesta edição, os atletas competiram em 79 provas distribuídas por seis modalidades paralímpicas de inverno:
- Para alpine skiing
- Para cross-country skiing
- Para biathlon
- Para snowboard
- Para ice hockey
- Wheelchair curling
Mais do que um evento desportivo, os Jogos Paralímpicos de Inverno representam um espaço onde tecnologia, adaptação e preparação física se encontram para expandir aquilo que entendemos como os limites do corpo humano.
Um momento simbólico para o movimento paralímpico
A edição de 2026 tem também um significado especial: marcou 50 anos desde os primeiros Jogos Paralímpicos de Inverno, realizados em 1976 na Suécia. Ao longo dessas cinco décadas, o movimento paralímpico transformou profundamente o desporto de alto rendimento e ajudou a mudar a forma como o mundo olha para a deficiência, a acessibilidade e a inclusão.
Além das competições, os Jogos estão também a deixar um legado importante nas cidades anfitriãs, com melhorias em transportes, espaços públicos e infraestruturas acessíveis. O impacto vai muito além das medalhas: trata-se de transformar cidades, ampliar oportunidades e mudar percepções sobre inclusão.
Velocidade, confiança e resistência na neve
Assistir às descidas do snowboard cross e do banked slalom, por exemplo, é perceber que a prancha se torna muito mais do que equipamento e transforma-se numa verdadeira ferramenta de liberdade.
Nas pistas paralímpicas, próteses de última geração feitas de fibra de carbono e titânio, muitas vezes equipadas com sistemas hidráulicos de absorção de impacto, permitem que atletas com amputações de membros inferiores realizem curvas profundas e descidas a alta velocidade. A tecnologia não elimina o desafio da montanha, mas amplia as possibilidades do movimento.
Entre as imagens mais marcantes destes Jogos estão também as provas de esqui para atletas com deficiência visual. No Para Alpine Skiing, alguns competidores descem montanhas geladas a velocidades superiores a 100 km/h, guiados apenas pela voz do parceiro que esquia alguns metros à frente. É um exercício extremo de confiança, precisão e coordenação.
Um exemplo claro dessa parceria é a dupla australiana formada por Georgia Gunew e o seu guia Ethan Jackson. Durante a descida, Jackson esquia alguns metros à frente e comunica com Gunew através de um sistema de áudio no capacete, indicando cada curva, inclinação da pista ou mudança de terreno. Mais do que técnica individual, estas provas mostram como o esqui paralímpico também é um desporto de equipa, como pode ver neste vídeo.
Já no Para Cross-Country Skiing, o desafio assume outra forma: resistência pura. Atletas utilizam sit-skis (trenós aerodinâmicos adaptados) e percorrem longas distâncias impulsionados apenas pela força dos membros superiores. O resultado é uma demonstração impressionante de resistência muscular e preparação física, como se pode ver aqui.
Atletas que marcaram estes Jogos
Para entender o nível de performance destes Jogos, precisamos de olhar para os protagonistas que já chegaram à Itália com o peso do favoritismo e da história nas suas pranchas e esquis.
Oksana Masters: Uma das maiores estrelas do desporto paralímpico, a atleta norte-americana conquistou ouro 3 vezes em Milão-Cortina, (biatlo sprint, no cross-country sprint e na corrida de 10km sentado) igualando seu recorde de 2022. Com 22 medalhas paralímpicas, Masters é uma das atletas mais premiadas da história do movimento paralímpico e a norte-americana mais condecorada na competição.
Cristian Ribera: Outro nome importante da delegação brasileira é Cristian Ribera, atleta do esqui cross-country paralímpico. Natural de Jundiaí, em São Paulo, ele começou no desporto através do atletismo adaptado e encontrou no esqui uma nova modalidade para desenvolver a sua carreira internacional. Conquistou medalha de prata histórica, a primeira do Brasil em Paralimpíadas de Inverno.
Brenna Huckaby: No para snowboard, especialmente nas provas de snowboard cross e banked slalom (que lhe rendeu uma medalha de bronze), a norte-americana é uma das grandes referências da modalidade. Mãe, sobrevivente de cancro e atleta de elite, ela compete com uma técnica marcada pela fluidez e pelo controlo na descida. Mais do que lutar por medalhas, Huckaby tornou-se também uma voz importante pela visibilidade das mulheres no desporto adaptado e pela forma como as atletas paralímpicas são representadas na mídia.
Veronika Aigner – conquistou 5 medalhas no esqui alpino paralímpico, sendo 4 ouros e 1 prata, com desempenho consistente em todas as provas e presença forte no pódio, consolidando-se como uma das principais atletas da edição de Milano‑Cortina 2026.
Jake Adicoff– O norte-americano brilhou nas provas de Para esqui cross-country para atletas com deficiência visual, conquistando dois ouros ao lado de seu guia Reid Goble e mostrando grande consistência em todas as provas disputadas.
Polina Rozkova e Agris Lasmans – Os atletas da Letônia conquistaram o bronze no curling em duplas mistas, garantindo a primeira medalha da história da Letônia em Jogos Paralímpicos de Inverno.
Outros esportes coletivos também tiveram seus momentos de destaque em Milano-Cortina 2026. No curling em cadeira de rodas, o Canadá conquistou a medalha de ouro após uma campanha consistente ao longo do torneio. Já no hóquei no gelo paralímpico, os Estados Unidos voltaram a dominar a modalidade e ficaram com o título, mantendo a sequência de bons resultados que a seleção tem apresentado nas últimas edições dos Jogos Paralímpicos de Inverno. O desempenho de Declan Farmer foi fundamental para a vitória da equipe.
Top 5 do quadro de medalhas
No ranking final dos 2026 Winter Paralympics, algumas potências tradicionais dos esportes de inverno confirmaram seu domínio, enquanto a anfitriã também se destacou com uma campanha histórica.
China – 15 ouros, 13 pratas e 16 bronzes. O país liderou o quadro de medalhas com forte desempenho no para biatlo e no esqui cross-country, conquistando vários títulos nas provas nórdicas.

Estados Unidos – 13 ouros, 5 pratas e 6 bronzes. Os norte-americanos brilharam no hóquei no gelo paralímpico, garantindo o ouro, além de medalhas importantes no para snowboard e no esqui nórdico.
Rússia – 8 ouros, 1 pratas e 3 bronzes. A delegação teve grande presença no pódio nas provas de esqui alpino e para biatlo, consolidando-se entre as potências da edição.
Itália – 7 ouros, 7 pratas e 2 bronzes. A anfitriã conquistou uma de suas melhores campanhas da história, com destaque para o esqui alpino paralímpico e o para snowboard.
Áustria – 7 ouros, 2 pratas e 4 bronzes. Tradicional nos esportes de inverno, o país teve resultados consistentes especialmente no esqui alpino, modalidade em que vários atletas chegaram ao pódio.
Muito mais do que desporto
Nos Jogos Paralímpicos de Inverno, cada descida na montanha ou cada prova de resistência revela algo maior do que a competição. Equipamentos adaptados, próteses de alta tecnologia e parcerias entre atletas e guias mostram que o movimento paralímpico não é apenas sobre superar limites físicos, mas também sobre reinventar o próprio movimento.
Entre a neve e a velocidade das montanhas, os Jogos de Milão-Cortina lembram que o desporto pode ser uma poderosa ferramenta de inclusão, inspiração e transformação: o que hoje é uma peça de alta performance para um atleta de elite, amanhã será a tecnologia que devolverá mobilidade a milhões de pessoas.