Dias frios, mãos quentes: 5 projetos de slow craft que vão inspirar-te a fazer da tua casa um atelier criativo neste inverno

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Quando o inverno chega, com os seus dias mais curtos e noites longas, o corpo sente um impulso natural para o aconchego do lar. É tempo de chá fumegante, mantas quentes e, porque não, de descobrir uma nova paixão manual que aquece a alma tanto quanto o corpo.

Estas cinco projetos, todos liderados por mulheres inspiradoras, mostram como o artesanato consciente pode ser uma forma poderosa de slow living – e uma ótima desculpa para passarmos horas criativas em casa, longe do frio.

Srta. Galante: Tricot e crochet para um lar mais acolhedor

Anne e Ana Galante, duas irmãs de São Paulo, fundaram a Srta. Galante em 2008, impulsionadas pelo talento precoce de Anne para o tricot, descoberto aos 12 anos. Desiludida com o ritmo frenético do fast fashion, ao trabalhar para marcas conhecidas do mercado brasileiro, Anne procurou a expertise da irmã em Têxtil e Gestão para criar peças 100% manuais, com fios naturais e produção ética. Ana tornou-se responsável pelo conceito da marca e pelo marketing, enquanto Anne, formada em moda, dedicou-se à criação e ao desenvolvimento de peças, produção, cursos e capacitação.

Inicialmente focada em roupa, a marca foi ganhando destaque em revistas, dentro de uma lógica de produção e consumo conscientes (slow fashion). Mas em 2020, com a pandemia, as irmãs Galante viram o lar ganhar protagonismo e redirecionaram-se para a decoração: almofadas, puffs, mantas, tapetes, cestas, tapeçarias e até uma coleção Outdoor resistente à chuva para varandas, jardins e pátios. Tudo sob encomenda, em parceria com uma rede de dezenas de artesãs (muitas mães que trabalham de casa), com remuneração justa e crédito individual. Em 2025, celebram quase duas décadas de compromisso com a produção artesanal e um “gostinho de Brasil” puro.

Convite à criação

Criar a tua própria manta de inverno e acompanha o nascer de algo único, ponto após ponto. O tricot e o crochet são relaxantes e acessíveis: basta um novelo de lã sustentável e duas agulhas. Tutoriais gratuitos abundam no YouTube – a começar pelo canal da própria Anne. Enquanto a manta cresce no teu colo, o mundo lá fora desacelera. Um podcast ao fundo, uma chávena quente por perto, e a sensação rara de fazer algo apenas pelo prazer de fazer.

Sirohi: Upcycling de plásticos em móveis cheios de história

Gauri Malik, designer indiana com background em investimento bancário, fundou a Sirohi em 2019, a partir da garagem dos pais em Haryana. Inspirada por uma visita à aldeia rural Sirohi, quis resolver o desperdício massivo de plásticos e têxteis na Índia e a falta de oportunidades para mulheres em comunidades marginalizadas.

Hoje baseada parcialmente em Singapura, Gauri dirige uma marca de luxo sustentável que emprega cerca de 200 a 250 artesãs rurais, oferecendo salários justos, horários flexíveis e treinamento em técnicas de tecelagem tradicional como macramé e charpai.

O processo recolhe resíduos têxteis e plásticos – cordas e tecidos velhos, embalagens usadas – limpa-os, funde-os em cordas coloridas e mistura-os com fibras naturais locais (juta, algodão, raffia), recolhidas num raio de 2 quilómetros. Tudo trançado à mão em cadeiras, bancos, charpais (camas tradicionais), mesas, luminárias, puffs, divisórias, cestos e bolsas duráveis.

Convite à criação

A Sirohi prova que luxo sustentável pode empoderar, limpar o planeta e ser belo. Neste inverno, entrega-te à magia do DIY: dá nova vida a cordas e materiais que iriam para o lixo, transformando-os num cesto ou num suporte para plantas. Em tardes chuvosas, deixa as mãos criarem peças decorativas únicas e com histórias de reutilização. Meditativo, ecológico e empoderador!

The Clay Label: Cerâmica inspirada no oceano

Marta Botelho, portuguesa criada entre Portugal e a Austrália, trocou a carreira em finanças e a indústria do surf pelo barro em 2018. Surfista apaixonada desde 2009, encontrou no mar a sua principal inspiração: as peças handmade – jarras e vasos ondulados, candeeiros orgânicos e os icónicos ouriços-do-mar – evocam erosão, ondulação e movimento.

Durante o confinamento, a cerâmica deixou de ser um hobby para tornar-se essencial: um gesto de regresso à matéria e ao tempo lento. Em 2020 fundou a The Clay Label e, dois anos depois, abriu o primeiro estúdio em Caxias (Oeiras): atelier, loja e espaço de workshops, perfeitos para quem quer experimentar modelagem manual.

Trabalhadas em grés de alta temperatura com vidrados não tóxicos, as peças são únicas, seguras para uso diário e feitas para durar gerações, carregando sempre a memória do oceano em superfícies marcadas e texturas orgânicas. Peças como os ouriços-do-mar, que definiram a sua linguagem autoral, revelam uma prática onde o corpo, a natureza e o tempo dialogam de forma silenciosa e profunda.

Convite à criação

No inverno, trabalhar com barro pode fazer-te sentir especialmente enraizada: o toque húmido, o ritmo lento, o silêncio do atelier. Em casa, começa com barro que seca ao ar ou air dry (sem forno) para criares pequenos bowls ou decorações. Para inspiração, recomendamos uma viagem pela conta de instagram @the.clay.label – as fotos vão fazer-te querer sujar as mãos já!

Ecoutil: Velas tropicais em cascas de coco reaproveitadas

A Ecoutil, projeto brasileiro com raízes em Pernambuco e São Paulo, dá nova vida a cascas de coco que seriam desperdício, transformando-as em recipientes únicos para velas veganas. Usam cera natural de soja ou coco, pavios de algodão ou madeira e óleos essenciais tropicais como capim-limão, citronela, lavanda, café ou combinações exclusivas.

Cada vela reduz emissões de CO₂ (evitando transporte de novos recipientes) e gera rendimento direto para artesãos locais (muitos em comunidades costeiras de Pernambuco). As cascas, colhidas de cocos já consumidos, mantêm a textura natural e rústica, tornando cada peça irrepetível.

Convite à criação 

Fazer velas em casa é uma das atividades DIY mais simples e gratificantes: compra cera vegetal, pavios de algodão, fragrâncias naturais e usa cascas de coco (ou copos velhos reutilizados) como base. Derrete, mistura, fixa o pavio e espera até solidificar; em poucas horas tens velas personalizadas que perfumam e iluminam as noites longas – e trazem um cheirinho de verão para dentro de casa no inverno mais cinzento.

Tinctorium Studio: Tingimento natural com plantas sazonais

Annette, no seu acolhedor estúdio Tinctorium Studio na Abóboda (Cascais), forrageia plantas locais sazonais para tingir tecidos à mão de forma artesanal e sustentável. O inverno destaca-se como a estação rainha, com cascas de carvalho, eucalipto, nozes e grainhas de romã que produzem tons profundos e terrosos de castanho, cinza, terracota e até nuances avermelhadas, evocando a paleta da natureza em repouso.

Os resultados são peças únicas e encantadoras: lenços de seda fluida, casacos elegantes, tote bags práticas e acessórios do dia a dia, tudo 100% natural, sem químicos sintéticos e com colheita ética num jardim de permacultura que respeita o ciclo das plantas. Sob a marca Wear Tinctoria, estas criações carregam a energia das plantas locais, promovendo uma moda lenta e regenerativa.

Annette oferece ainda kits DIY completos para tingimento em casa e workshops presenciais imersivos, onde ensina técnicas como eco‑print (impressão botânica) e bundle dyeing (com flores e folhas para padrões orgânicos).

Convite à criação

Nos dias frios de inverno, nada melhor do que a alquimia caseira: ferver uma panela com cascas recolhidas num passeio pelo campo, mergulhar um pano velho ou uma peça de roupa esquecida e ver surgir cores mágicas. É relaxante, meditativo e profundamente sustentável – uma forma de reconectar com a terra.

Para iniciantes, experimentem primeiro com peles de cebola (amarelos e laranjas quentes) ou chá preto usado (tons de bege a castanho). Explorem os kits da Tinctorium Studio: são entregues em casa, com instruções claras, e são ideais para descobrir este mundo fascinante sem sair do lar. Uma prática ancestral que transforma o quotidiano em arte viva!

O inverno não tem de ser só hibernação: pode ser renascimento criativo. Estes cinco projetos liderados por mulheres – Anne e Ana, Gauri, Marta, as fundadoras da Ecoutil e Annette – mostram que criar com consciência é acessível, empoderador e bom para o planeta. Escolhe a técnica que mais te atrai, reúne o essencial e deixa que a tua criatividade faça a magia acontecer. Quem sabe não descobres uma nova paixão que durará muito para além da estação fria?

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