Há momentos em que um filme deixa de ser apenas cinema e torna-se um evento cultural e político. Yanuni é um desses casos: um documentário que dialoga diretamente com as urgências do nosso tempo. Conversar sobre ele não é apenas pertinente — é necessário. Não pelo reconhecimento — o filme esteve pré-selecionado para os Óscares — mas pelo que ele amplifica: uma luta real, contínua e profundamente atual.
Dirigido pelo austríaco Richard Ladkani e produzido por Leonardo DiCaprio, Yanuni acompanha a vida e a luta de Juma Xipaia, cacica do povo Xipaya, na Terra Indígena Xipaya, no Pará — uma liderança que vem atravessando uma resistência duradoura contra a invasão das terras, o garimpo ilegal e a destruição da floresta. A força do filme está na forma como ele aproxima a câmara da vida de Juma: a sua defesa das árvores, dos rios e das pessoas não é abstrata mas sim enraizada na sua própria existência, na sua história e na memória do seu povo.
Numa entrevista recente, Juma, que é também co-produtora do filme, expressou de forma direta o que motiva a sua luta: “Eu não quero fama, não quero seguidores. O que eu quero é uma realidade diferente. Quero poder estar no meu território, quero que os meus filhos tenham a infância que eu tive… e que as próximas gerações tenham o direito e a dignidade de viver — e não somente de resistir no seu território. Temos o direito de dizer ao mundo que existimos.”
Esta frase resume o cerne da obra: não se trata apenas de denunciar, trata-se de contar com dignidade uma história de resistências, afetos, perdas, desafios e persistências. O documentário não esconde a vulnerabilidade de Juma, nem os momentos em que a própria líder se confronta com dúvidas e medos, sobretudo quando envolve a exposição dos seus filhos e as ameaças que pairam sobre toda a comunidade.
Além de Juma, Yanuni traz também a perspectiva de Hugo Loss, seu companheiro e agente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que atua na linha da frente contra os impactos mais diretos da extração ilegal de minérios e da devastação ambiental. “O garimpo está a operar dentro dos nossos territórios como nunca antes. Está ligado a cartéis e tem apoio político”, denunciou Hugo Loss numa entrevista ao site Deadline, explicando a complexidade e a violência enfrentadas na fiscalização contra a mineração ilegal na Amazónia. A parceria entre Hugo e Juma, construída no quotidiano da luta, acrescenta uma camada humana e política à narrativa — algo que a câmara capta com sensibilidade e profundidade.
Do lado de fora da floresta, Richard Ladkani, conhecido por filmes ambientais de grande impacto (como The Ivory Game), escolheu Juma como protagonista depois de perceber que a sua história representava não apenas uma voz, mas um conjunto de experiências e sentidos ligados à própria sobrevivência da floresta e dos povos que dela dependem. Para Ladkani, o encontro com Juma foi decisivo: “Ela é tão poderosa… há uma poesia na forma como ela fala que me fez sentir que tinha encontrado o meu sujeito”, declarou o cineasta ao site Awards Watch.
Esta empatia é visível no tratamento narrativo do filme: Yanuni não se limita a expor dados ou imagens desoladoras. Ele convida o espectador a sentir a floresta, a escutar as vozes que há muito tempo foram silenciadas e a reconhecer que a defesa da Amazónia não é uma pauta isolada — ela toca a todos nós. A floresta, como diz Juma em trechos da narrativa, é mais do que um território físico — é vida, é ancestralidade, é um direito que se estende às futuras gerações.
Este filme é também um lembrete de que lideranças femininas indígenas estão a moldar narrativas poderosas sobre política, território e futuro. Juma Xipaia não é tratada como uma figura simbólica, mas como uma protagonista com voz própria, com força e fragilidade, com história e com luta — e é essa humanidade que Yanuni coloca no centro da discussão.
Assistir ao filme é aceitar um convite: não apenas observar, mas escutar; não apenas refletir, mas agir. Porque defender a Amazónia é defender a vida em todas as suas formas — e porque não há mudança real sem mulheres a liderar.
Abaixo o trailer dá um gostinho do que este filme representa.