Luana Piovani construiu uma carreira impossível de resumir numa imagem bonita ou a num papel convencional. Aos 49 anos, é uma das vozes mais incontornáveis do entretenimento brasileiro – e, agora, também português. Começou como modelo aos 14 anos, explodiu nacionalmente aos 16 com a minissérie Sex Appeal (1993), onde ousou em cenas que chocaram e encantaram o Brasil conservador da época. Seguiram-se papéis marcantes em novelas como Quatro por Quatro, Vira-Lata e Suave Veneno, filmes como O Homem que Copiava e A Mulher Invisível (que virou série de sucesso), além de uma carreira sólida no teatro, onde sempre defendeu a arte como ferramenta de reflexão social.
Atualmente, está de volta aos palcos com a peça “Cantos da Lua”, um espectáculo intimista e leve que mistura teatro e música, onde convida o público a dividir a cena com ela e a contactar com a sua vulnerabilidade. Em cartaz até 8 de fevereiro em São Paulo, o espetáculo é inspirado no género stand up e tem em cena um músico que orquestra com Luana uma experiência única, reforçando o seu compromisso com projetos que misturam humor, crítica social e reflexão sobre temas contemporâneos.
Mas Luana nunca foi só “a loira bonita” da televisão e dos palcos. Recusou o papel de mulher-objeto, contratos que a limitassem e personagens que a diminuíssem. Tornou-se apresentadora (Saia Justa), encenou e protagonizou peças infantis, mudou-se para Portugal há mais de uma década em busca de uma vida mais coerente e autêntica. Mãe de três filhos (Dom, Bem e Liz), criou o projeto social Oráculo da Luapio, uma série de encontros e reflexões entre mulheres com foco na informação, acolhimento e independência financeira.
Ao longo dos anos, foi protagonista não apenas em cena, mas também no debate público — e pagou o preço dessa frontalidade com críticas e o selo recorrente de “polémica”. Falou alto sobre machismo, maternidade real, política, justiça social, racismo estrutural, violência contra as mulheres e, mais recentemente, sobre os limites da exposição, da saúde emocional e da espiritualidade feminina. A sua mudança para Portugal marcou um novo capítulo — mais lúcido, mais radical na consciência e igualmente inconformado — onde a distância geográfica não suavizou o discurso, apenas o tornou ainda mais afiado.
Nesta entrevista exclusiva à Girls on Board, Luana Piovani fala sem concessões sobre os limites que impôs à indústria do espetáculo desde o início da sua carreira, o custo de não agradar, envelhecer num mundo obcecado pela imagem, o que Portugal lhe ensinou sobre o patriarcado universal e a importância vital da independência financeira das mulheres. Entre terapia, lucidez emocional, espiritualidade, arte como ferramenta política e a recusa da rivalidade feminina, esta conversa atravessa temas urgentes do nosso tempo — com a assertividade de quem nunca aceitou caber num espaço pequeno demais para si.
- A tua voz sempre foi muito firme e pouco conciliadora – foste muitas vezes chamada de “polémica”. Em que momento da tua vida percebeste que não estavas mais disposta a agradar? Qual foi o limite mais difícil de impor, e a que custo?
Eu entendi que não estava a fim de agradar desde muito nova. Eu me tornei uma pessoa famosa aos 16 anos e, ali mesmo, eu já entendi que o que esperavam de mim não era o que eu queria fazer. Nunca me submeti à vontade dos outros – isso sempre foi muito claro na minha vida. Sempre paguei o preço da independência. Porém, sou muito feliz porque é uma escolha minha.
Penso que o limite mais difícil que tive que impor foi justamente esse, do início da minha carreira, que tratava de não aceitar ser o personagem que a sociedade queria que eu fosse: uma mulher bonita que vivesse única e exclusivamente de sua beleza e que se satisfizesse em protagonizar novelas e campanhas, sorrindo para todos os que quisessem o seu sorriso. Jamais caberia num espaço tão pequeno.
- Viver fora do Brasil mudou a forma como te vês enquanto mulher, mãe e profissional? O que Portugal te ensinou? E no que te desafiou?
Com toda certeza sair da zona de conforto nos traz horizontes mais ampliados. Depois da minha mudança, eu consigo enxergar o mundo com horizontes mais longos. Portugal me ensinou que o planeta é uma máquina de moer mulher. Infelizmente não é um mal que adoece só o Brasil ou só Portugal – o mundo é patriarcal e não sabe cuidar do seu único portal da existência, nós as mulheres. Combinaram de nos matar, porém, nós combinamos de não morrer. Sigo acreditando na nossa vitória.
- Falas muitas vezes de lucidez e responsabilidade emocional. De onde vem essa autoconsciência? Que hábitos ou crenças tiveste de abandonar para crescer, mesmo que eles te dessem conforto?
Óbvio que a minha criação assenta muito nos meus princípios. Porém, com toda certeza foi a terapia, através do autoconhecimento, que fez com que eu conseguisse perceber o mundo através de mim e me entender através do mundo. O que eu tive de criar e trabalhar dentro de mim, para a vida fazer sentido com o discurso que tenho, foi estar absolutamente atenta e lúcida dos meus privilégios que a branquitude traz, e ser um elemento anti-racista na luta por uma vida mais justa para todos os nossos irmãos e semelhantes.
- Vivemos numa era de excesso de informação e pouca presença. Como proteges a tua energia e a tua atenção? Tens alguma prática espiritual (formal ou intuitiva) que te ajude a manter os pés na terra quando o mundo à volta gira e grita?
Eu sigo fazendo terapia. Houve um tempo em que eu estava desligada dela mas voltei recentemente. Também me esforço para manter o hábito da leitura, sigo lendo poesia, sigo achando que o grande motivo da nossa existência é encontrar o outro – o que significa que eu sigo encontrando as pessoas que gosto e que admiro para aprender com elas. O mais importante é estar completamente focada em não olhar apenas para o seu próprio umbigo.
- Na Girls on Board, falamos muito sobre desporto, em particular desportos extremos. Pessoalmente, acompanhas alguma modalidade? Encontras inspiração em alguma mulher que esteja a puxar os limites nos desportos radicais ou no Outdoor?
A parte do desporto eu deixei para os meus filhos. Sempre fui uma miúda muito ativa, pratico desportos desde a infância – sempre dancei, já fiz karaté, voleibol, natação… E a minha carreira de atriz também me trouxe outros aprendizados. Às vezes, as personagens trazem desafios em que precisamos estudar e aprender alguma nova modalidade de desporto. Eu, por exemplo, já fiz esgrima, já fiz futebol, já tive inclusive treinamento com o Bop para fazer policiais. Atualmente, faço ioga, pilates e boxe, que são para mim maneiras de cuidar da minha saúde mental e física. Sem ser dança, eu nunca fui muito viciada em desporto nenhum e sempre interessada em conhecer um pouco de tudo. E para finalizar, preciso deixar claro: tenho horror de adrenalina, eu gosto é de sossego.
- A arte pode ser cura, denúncia ou provocação. Hoje, o que procuras quando sobes ao palco ou te expões artisticamente?
O meu intuito nas minhas apresentações é criar plateia. É fazer com que as pessoas percebam que teatro não é apenas entretenimento. É no teatro que nós visualizamos e temos a oportunidade de perceber o que a nossa sociedade nos oferece, e está vivendo. Espero fazer com que as pessoas entendam que o teatro, assim como o circo, é uma arte milenar que precisa ser incentivada para que não desapareça. O teatro é a alma e a cor da humanidade.
- A competitividade é algo que nos é imposto pela sociedade, em particular entre mulheres e em particular no mundo das artes. Ao longo da tua carreira, sentiste essa rivalidade imposta? Como aprendeste a sair desse jogo e o que ganhaste com isso?
A minha carreira artística tem uma construção muito diferente das carreiras das outras atrizes que são famosas e de conhecimento público. Eu tive apenas um contrato de dois anos de duração; depois disso, sempre assinei contratos por obra, o que me deu muita independência e fez com que eu gerisse a minha própria carreira e fizesse as minhas escolhas. Explico isso porque não senti muita rivalidade por eu sempre estar passeando pelos meios do cinema, do teatro, da apresentação… Eu nunca fiquei fechada nesse núcleo de atrizes protagonistas de novela, aliás, novela foi algo que fiz pouquíssimo na minha vida. Meus amigos são do teatro, tenho apenas uma amiga famosa. Inconscientemente consegui fugir dessa parte nociva do meu meio.
- Envelhecer trouxe-te mais liberdade criativa ou novos tipos de censura (interna ou externa)? Como escutas o teu corpo hoje – os limites, os desejos, o prazer, o cansaço, a intuição?
Penso que a maturidade nos traz muita liberdade. Conseguimos valorizar o que realmente importa e distinguir onde gastamos energia em excesso por algo que não vale a pena. Envelhecer faz parte do processo de vida – não acho que serei alguém que vai morrer cedo, então a única opção é envelhecer. A psicanálise traz um entendimento de vivência que ajuda muito os analisados, então sinto-me feliz por ter procurado o autoconhecimento tão nova e hoje poder usufruir das ferramentas que a terapia e a psicanálise me deram para lidar com âmbitos da vida que não são os mais fáceis. Envelhecer, para alguém que lidou com a imagem, que foi chamada de linda, que sempre foi modelo de beleza, é muito difícil; porém, com inteligência e maturidade, a gente vai se desviando dos boicotes e buscando a evolução espiritual e humana. Se alguém ainda não entendeu que essa capa/forma vai acabar, eu só lamento. O que fica, exclusivamente, é o que você colocou no seu estofo durante toda a vida; no fim, só resta isso.
- A espiritualidade feminina muitas vezes é desacreditada ou ridicularizada. Como distingues intuição de medo, e fé de auto-engano?
Eu observo, me escuto internamente, tento distinguir no silêncio emocional o que é uma coisa e o que é outra. Às vezes dá certo – na maioria dos casos, na verdade – mas às vezes não dá. A vida também é feita de erros e equívocos.
- Que conversas achas urgentes entre mulheres hoje – aquelas que ainda evitamos por medo, cansaço ou julgamento?
A conversa mais urgente que nós mulheres precisamos ter e estar atentas, é da independência financeira. Quando temos independência financeira, mesmo tendo dependência emocional, fica mais fácil visualizar a luz ao fim do túnel. Tenho um projeto social chamado Oráculo da Luapio, aonde o intuito é levar informação e acolhimento para as mulheres. Quero que as mulheres despertem! Quando entendermos que somos a maioria do mundo, que temos infinitamente mais inteligência emocional, e que convivemos melhor em sociedade do que os homens, entenderemos que o futuro para ser bom tem que estar nas nossas mãos. Porém, precisamos abrir mão da inércia, nos unirmos e irmos fortemente contra os que nos “escravizam”. É preciso não depender de homem nenhum, seja ele o marido ou o Congresso Nacional. Precisamos ter mais mulheres a nos representar em todos os âmbitos mundiais.