Pausas curativas: a arte de desacelerar pela leitura

Quatro livros que funcionam como um kit de primeiros socorros para a alma, desenhados para criar pausas no seu dia a dia e resgatar a presença 

Em junho, celebramos a leitura que funciona como um “micro-ritual” de bem-estar, convidando-nos a desacelerar para reencontrar a beleza e a clareza no quotidiano.

As Coisas Que Você Só Vê Quando Desacelera – Haemin Sunim

As Coisas Que Você Só Vê Quando Desacelera - Haemin Sunim

Este guia ilustrado, escrito por um monge zen-budista coreano, explora a ideia de que o mundo não é um lugar frenético por si só; é a nossa mente que o torna assim. Desenhado para ser lido devagar, Sunim divide o livro em temas como descanso, atenção plena, paixão e relacionamentos. 

Ele explica que quando estamos em modo “lutar ou fugir”, perdemos a capacidade de ver as soluções e a beleza que nos rodeia. Desacelerar é um ato de rebeldia consciente: não é perder tempo, é ganhar nitidez.

A nossa perceção do mundo é um reflexo do estado da nossa mente. Se a nossa mente estiver frenética, o mundo parecerá caótico; se a mente descansar, o mundo descansará com ela.

Se você quer dissipar as nuvens de pensamentos, apenas mantenha a mente no presente. As nuvens de pensamento se agarram apenas ao passado e ao futuro. Traga a mente para o presente, e seus pensamentos vão repousar.”

O Pequeno Livro do Ikigai – Ken Mogi

O Pequeno Livro do Ikigai - Ken Mogi

Uma exploração leve da filosofia japonesa sobre o propósito de vida. Ikigai combina iki (vida) e gai (valor) – é a razão pela qual nos levantamos de manhã.

Ao contrário da visão ocidental – que foca, por exemplo, em carreira ou dinheiro – o Ikigai foca no processo, não no resultado. É simplesmente, a alegria de estar vivo.

Pode ser algo tão simples como o cheiro do café pela manhã ou o cuidado ao cultivar um bonsai. É um espectro que vai das pequenas alegrias do quotidiano até aos grandes objetivos de vida, mas nunca depende de reconhecimento social ou ganho financeiro.

É uma democratização da felicidade que qualquer pessoa pode cultivar através de cinco pilares fundamentais:

  • Começar pequeno: Focar nos detalhes sem a pressão de um grande resultado.
  • Libertar-se: O desapego do ego para permitir que a tarefa “flua”.
  • Harmonia e sustentabilidade: Entender que o seu bem-estar depende do equilíbrio com o todo.
  • Alegria nas pequenas coisas: Encontrar prazer sensorial no aqui e agora.
  • Estar presente: Atingir o estado de flow, onde a noção do tempo desaparece.

“O maior segredo do Ikigai é aceitar-se a si próprio, não importa que tipo de características únicas possa ter nascido com elas. Não há um caminho único para o Ikigai; cada um de nós tem de encontrar o seu próprio caminho, cultivando as suas próprias sensibilidades.”

The Path to Kindness: Poems of Connection and Joy – James Crews

The Path to Kindness: Poems of Connection and Joy - James Crews

Uma antologia de poemas contemporâneos que celebram a vida comum, através de versos que funcionam como orações laicas, focada na gratidão e na observação da natureza.

Pautada pela “bondade radical”, o autor acredita que ler poesia curta e acessível ajuda a criar novas vias neurais para a empatia. Além disso, a poesia tem o poder de nos tirar do modo “piloto automático”, forçando-nos a olhar para um detalhe, seja uma folha, um gesto, um silêncio – até que ele se torne sagrado.

O livro explora como a conexão humana é o nosso estado natural, mas que o stress e a tecnologia nos isolam. Os poemas aqui selecionados são como “instruções de uso” para voltarmos a ver o próximo com gentileza. 

É uma leitura ideal para momentos de transição no dia e a ideia central do livro é explicada por James como: “A bondade é o fio invisível que nos impede de cair quando o mundo parece demasiado pesado. Estes poemas servem para nos recordar de que esse fio existe.”

A Arte de Parar o Tempo – Pedram Shojai

A Arte de Parar o Tempo - Pedram Shojai

Utilizando a sabedoria do Taoísmo para interromper ciclos de stress no sistema nervoso e “reiniciar” o cérebro, o autor introduz o conceito de “gongo urbano”: um compromisso de realizar micro-rituais e inseri-los em momentos estratégicos do dia, como ao acordar, antes de uma reunião ou enquanto espera no trânsito.  

Na tradição oriental, um “gongo” é um período de prática espiritual intensa, mas Shojai adapta isso para a vida ocidental, criando práticas de 1 minuto. A lógica dele é muito pragmática: 60 segundos é um tempo que ninguém pode dizer que não tem.

O autor defende que o “não tenho tempo” é uma ilusão criada pela nossa falta de foco. Ele aborda áreas como a alimentação, o sono, o trabalho e os ecrãs. A ideia é criar intervalos intencionais para recarregar a energia, evitando que o dia seja apenas uma sucessão de reações a estímulos externos, nos fazendo recuperar o domínio sobre a nossa própria experiência de vida. 

“O tempo flui da mesma forma para todos. A diferença está em como habitas os teus segundos. Podes ser um escravo do relógio ou o mestre do teu momento.”

A cura está na pausa

A leitura consciente é o remédio mais acessível para o caos moderno. Não precisa de um retiro ou de uma mudança radical de vida para encontrar paz; basta escolher um destes santuários portáteis, colocar o telemóvel em modo de voo e permitir-se habitar apenas o presente.

Comece com uma página, um poema ou um minuto de “gongo”. O caminho para o bem-estar constrói-se em cada pequena interrupção consciente e a sua alma agradece.

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