A ketamina, um fármaco que começou como anestésico em cirurgias, transformou-se numa ferramenta revolucionária no tratamento da depressão grave. Mas, do outro lado da moeda, o seu consumo recreativo explode em vários cantos do planeta, levando a vícios devastadores e problemas de saúde que ninguém previa
Farol de esperança: o mais potente anti-depressivo da atualidade
Para muitas pessoas com depressão resistente ao tratamento, depois de experimentarem vários antidepressivos sem sucesso significativo, a ketamina oferece uma opção que atua de forma mais rápida do que os medicamentos convencionais. Este fármaco, desenvolvido nos anos 1960 como anestésico, ganhou nova vida na psiquiatria graças à sua capacidade de atuar rapidamente no cérebro, ao contrário dos antidepressivos tradicionais que demoram semanas a fazer efeito.
Enquanto a medicação convencional demora 4 a 6 semanas a atuar e falha em cerca de 2/3 dos pacientes, a ketamina alivia sintomas em horas ou dias, sendo a única opção testada com ação tão rápida — útil em casos graves e risco suicida. Estudos mostram que uma infusão intravenosa de ketamina em dose subanestésica pode reduzir significativamente (em mais de 50%) sintomas depressivos em 91,6% dos pacientes, com 66,6% deles a atingirem a remissão total da depressão em apenas alguns dias ou semanas. Uma investigação da Stanford Medicine, publicada em 2018, demonstrou que a ketamina ativa o sistema opioide no cérebro, levando a uma redução drástica dos sintomas depressivos em 72 horas.
No campo clínico, a ketamina tem sido testada em ensaios rigorosos. Uma meta-análise sistemática publicada na revista The Lancet, em 2023, analisou vários ensaios e concluiu que doses mais altas melhoram os efeitos antidepressivos tanto em sessões únicas como em administrações repetidas, com resultados promissores para pacientes com depressão resistente. Um outro estudo de longa duração, iniciado quase 20 anos antes (em 2004), já tinha demonstrado em 2018 os efeitos antidepressivos rápidos da ketamina em pacientes com depressão grave, confirmando melhorias no dia seguinte à administração.
Mais recentemente, uma comparação entre ketamina intravenosa e esketamina (uma variante nasal) numa investigação do Mass General Brigham em 2025 mostrou que ambas reduzem a gravidade dos sintomas, com a ketamina a atuar mais cedo e de forma mais intensa.
Nos EUA, uma revisão do NIH (National Institutes of Health) em 2022 reforça que a ketamina melhora sintomas em indivíduos com depressão refratária dentro de um dia, baseando-se em estudos iniciais que mudaram o paradigma do tratamento psiquiátrico. Em contextos paliativos, como no Palliative Care Network of Wisconsin, a ketamina é usada para alívio rápido em depressão terminal, destacando o seu papel em cenários onde o tempo é precioso.
No entanto, estes benefícios vêm com advertências – a ketamina não é uma cura milagrosa, e os tratamentos requerem supervisão médica para evitar abusos.
Lado negro: a droga que destrói vidas
Mas nem tudo é cor-de-rosa com a ketamina — longe disso. O seu potencial alucinogénio transformou-a num hit nas festas e ruas das grandes metrópoles, levando a um surto de vícios que alarma especialistas. Conhecida como “Special K” ou “cat Valium”, a ketamina é consumida recreativamente para induzir estados de dissociação e euforia, mas o preço é alto: dependência crónica, danos na bexiga e até overdoses fatais.
De acordo com o Global Drug Survey de 2018, que entrevistou mais de 130 mil pessoas, 5,9% reportaram uso continuado de ketamina, com 57,7% a usá-la no ano anterior, e muitos a necessitarem de tratamento médico de emergência devido a efeitos adversos. Nos EUA, o peso total de ketamina apreendida aumentou 1116% entre 2017 e 2022, sinalizando um boom no mercado ilegal, segundo dados analisados numa publicação de 2025 na revista cientifica Addiction.
O problema alastra-se globalmente, com hotspots em países onde o controlo é frouxo. No Reino Unido, o uso ilegal atingiu níveis recorde: cerca de 269 mil pessoas entre 16 e 59 anos reportaram consumo em 2025, segundo a BBC, e o número de quem inicia tratamento por vício subiu para 3609 em 2023-24, oito vezes mais do que em 2014-15, alertam médicos do BMJ Group, empresa global de edição médica e informação em saúde.
Na Austrália, a National Drug Strategy Household Survey de 2022-23 estimou 300 mil utilizadores no ano anterior, com o consumo a disparar em festivais e discotecas, levando a advertências da UNSW (University of New South Wales, uma das principais universidades de investigação públicas australianas) sobre riscos como alucinações intensas e perda de controlo motor. Nos Países Baixos, o uso recreativo entre jovens em ambientes noturnos subiu para 25% num inquérito de 2023 a frequentadores de clubes e festivais, resultando em mais casos clínicos de emergência, como relatado numa publicação da ScienceDirect.
O Oriente não escapa: o World Drug Report 2025 reforça que a Ásia Oriental e Sudeste Asiático (junto com a Europa) concentram a maior parte das apreensões mundiais de ketamina, mantendo a região como principal hotspot de produção, tráfico e consumo não médico — em 2024, as apreensões atingiram 18,4 toneladas (uma queda de 21% face ao ano anterior, mas ainda elevada e indicativa de tráfico intenso).
Em Hong Kong (China), a ketamina segue como a segunda droga mais problemática entre jovens e recreativos, com aumento entre utilizadores mais novos e forte ligação a problemas urinários crónicos conhecidos como “ketamine bladder”.
Na Índia, o acesso fácil a versões genéricas alimenta o abuso, enquanto na Europa o controlo apertado não impede o aumento de apreensões, segundo a Euronews. Nos EUA, embora a ketamina esteja em menos de 1% das mortes por overdose entre 2019 e 2023 (dados do CDC), o uso não médico entre adultos subiu de 0,7% para 1,1% de 2016 a 2022, com 74% dos casos de emergência envolvendo jovens de 12 a 25 anos, segundo o Drug Abuse Warning Network.
Estes números pintam um quadro alarmante: o vício da ketamina não só causa dependência psicológica, mas também danos físicos irreversíveis, como cistite intersticial — também conhecida como síndrome da bexiga dolorosa, uma doença crónica que causa inflamação ou irritação da bexiga sem que haja uma infeção ou outra causa óbvia identificável. Uma análise na The Lancet de 2025 nota que, apesar da queda no uso entre adolescentes nos EUA (de 2,4% em 2000 para níveis mais baixos), o consumo adulto e as apreensões continuam a subir, exigindo mais regulação. Histórias reais, como a de uma mulher britânica entrevistada pela BBC, ilustram o caos: uso diário leva a isolamento, problemas de saúde e uma luta constante para parar.
Regulação: enquadramento legal da ketamina
Nos EUA, a esketamina é legal desde 2019 sob o nome comercial Spravato, sendo administrada via spray nasal para depressão resistente, oferecendo alívio rápido sem a necessidade de hospitalização constante. Em janeiro de 2025, deu-se uma expansão significativa: a aprovação como monoterapia (uso isolado) para adultos com depressão resistente, permitindo alívio de sintomas em até 24 horas em muitos casos.
A aprovação pela FDA (Food and Drug Administration) assinalou um marco: a agência norte-americana reguladora de medicamentos e alimentos serve de referência para outras entidades reguladoras (EMA na Europa, Infarmed em Portugal, Health Canada, etc.), influenciando decisões de aprovação em muitos países e acelerando processos. No entanto, a ketamina não está aprovada pela FDA para utilização continuada, mesmo por indicação psiquiátrica em casos de depressão – o seu uso neste contexto continua a ser off-label, embora comum em clínicas especializadas – e as autoridades norte-americanas continuam a alertar contra produtos compostos de ketamina (não aprovados) para fins terapêuticos, devido a preocupações com segurança e eficácia.
Em Portugal, a situação é semelhante: a ketamina é um medicamento autorizado pelo Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde) exclusivamente para uso anestésico e analgésico em contextos hospitalares e veterinários, sendo prescrita estritamente sob supervisão médica. A sua variante esketamina (Spravato, em spray nasal) está aprovada para o tratamento da depressão resistente em adultos, seguindo as indicações da Agência Europeia do Medicamento (EMA) e com condições rigorosas de prescrição, incluindo administração em ambiente controlado, monitorização pós-dose e avaliação do risco de abuso.
Quanto ao consumo recreativo, a ketamina está classificada como substância psicotrópica controlada ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971, o que a torna ilegal para fins não médicos em Portugal – o seu tráfico, posse em quantidades significativas ou distribuição sem prescrição é punível pela lei portuguesa sobre estupefacientes e substâncias psicotrópicas, constituindo crime grave.
Equilíbrio: entre luz e sombra
A ketamina é um paradoxo – salva vidas na clínica, mas destrói-as na rua. Enquanto estudos como o da Neuropsychopharmacology em 2023 exploram os mecanismos sinápticos por trás dos seus efeitos antidepressivos rápidos, alertando para a necessidade de tratamentos integrados, o abuso global exige ação urgente.
Países como o Reino Unido e a Austrália investem em campanhas de sensibilização, mas o desafio é global: regular sem bloquear o acesso terapêutico. Para quem sofre de depressão, a ketamina oferece esperança; para os imprudentes, um abismo. A chave? Educação e controlo, para que este fármaco não se torne mais um vilão das manchetes.