Por Dani Branco
Se fosse só uma questão de “basta querer”, a informação resolveria. O que prende muitas mulheres em relacionamentos abusivos, tóxicos, insalubres, não é amor, é trauma. Isso não tem a ver com falta de informação, inteligência ou força de vontade.
Tem a ver com o inconsciente, padrões de relacionamento assistidos e vividos na infância que desencadearam em trauma relacional. E a gente chama isso de “dedo podre”. Só que não é simples assim.
Primeiro, vamos entender o que é um relacionamento abusivo. É importante diferenciar relação tóxica de relação abusiva. Relações tóxicas envolvem trocas imaturas e conflitos mal elaborados. Ambos sofrem, ambos erram. No abuso, há assimetria: um controla e o outro se adapta. Um desorganiza e o outro tenta organizar o relacionamento (emocionalmente). Abuso é quando a relação produz medo constante de errar, de desagradar, de perder o outro, medo de conflito, medo de falar… No relacionamento abusivo, o clima emocional é regulado por uma só pessoa e amar passa a exigir adaptação excessiva e, consequentemente, perda de si mesma. Não começa com violência explícita. Começa com confusão, com pequenas inversões, tratamento de silêncio, punições emocionais, momentos de afeto seguidos de tensão. Intermitência. Aos poucos, a mulher vai perdendo a referência do que sente, do que percebe e do que pode e deveria, ou não, sustentar.
O nome disso é ciclo da violência e aprender sobre ajuda a identificar, mas também ajuda a entender por que é tão difícil sair. O ciclo funciona de forma sistemática e através do reforço intermitente. Funciona assim: primeiro vem o acúmulo de tensão, depois uma explosão ou ruptura abrupta, seguido de arrependimento, promessas e afeto intenso. Esse período bom é complexo porque ele não apaga a violência psicológica e moral em si e, contra intuitivamente, é esta parte do ciclo que mantém a violência acontecendo sistematicamente. É esta pedacinho que chamamos popularmente de migalhas emocionais. E isso dá para a mulher esperança de que “agora vai”, só que no final acaba funcionando como uma armadilha psíquica.
Muitas mulheres se engancham nesses relacionamentos porque o relacionamento traumático é familiar. O corpo-mente reconhece aquilo que já viveu lá na infância primária e, mesmo que doa, este lugar é conhecido e, embora dolorido, é “seguro”. Quando a história psíquica de uma pessoa a ensinou que amor vem com tensão, uma dinâmica calma pode parecer estranha, vazia ou sem graça.
Durante e depois da relação abusiva, o corpo da mulher está sempre em estado de alerta, continuamente. E o que isso significa? Como funciona? Nosso sistema nervoso central que comanda nosso corpo, que manda aviso pro nosso organismo acaba produzindo, através do estado de alerta adrenalina, que produz estresse, que produz cortisol que gera ansiedade, confusão mental, alterações de sono, sintomas físicos (queda de cabelo, de humanidade, espinhas, dores de estômago, de barriga, tremores) e, consequentemente, queda de vitalidade.
Quando sofremos um impacto emocional, nosso corpo produz adrenalina que serve para nos colocar em modo sobrevivência. Então, se estamos praticando esportes radicais, sentimos adrenalina, que significa que nosso sistema nervoso central ativou o nosso modo de alerta para sobrevivermos e depois de um dia repleto de adrenalina nós precisamos dormir. Ficamos exaustas. Agora pensa isso, todos os dias o dia todo. O relacionamento abusivo causa isso. Adrenalina todo dia o dia todo. O corpo e a mente vão se encaminhando pra um colapso. E pra sobreviver, nossa psique também se movimenta. Nesta parte vemos empobrecimento do gesto espontâneo, fortalecimento de um falso self adaptativo (um “eu” adaptado para sobreviver a um ambiente que falha frequentemente e que não tem previsibilidade, confiabilidade.) e perda da confiança na própria percepção.
Normalmente, é quando a relação acaba que o trauma aparece. O trauma não é o evento em si, mas sim o que acontece com você depois. A primeira coisa que bate é uma exaustão. Ela é física, mas também aparece como um embotamento mental. Vejo muitas mulheres que sentem culpa, saudade, vazio e um colapso emocional que pode se assimilar a uma experiência de abstinência. É muito confuso porque a mulher que saiu de um relacionamento abusivo costuma acreditar que era amor, que era química e que era intenso. Quando na verdade era instabilidade e violência, ou seja, um vínculo traumático.
Há muitas perdas neste tipo de vínculo e um luto intenso. Ansiedade, depressão, exaustão, desânimo, problemas de memória, de concentração, de autoestima, de auto percepção, tudo isso é efeito de relacionamentos abusivos. Neste texto, estou dando ênfase em relacionamentos amorosos, mas relacionamento abusivo pode acontecer entre familiares, entre “amigas”, no trabalho com colegas e/ou chefes.
Na psicanálise, o trabalho é reconstruir a capacidade de sentir segurança em si mesma. Isso é trabalhar o autoconhecimento, a auto estima, a percepção, a confiança em si mesma, etc. Quando o corpo-mente deixa de confundir amor com sobrevivência, a escolha muda.