Do medo do mar a convites para o Eddie Aikau e Capítulo Perfeito – Anne dos Santos à conquista de um lugar nos maiores palcos do surf mundial

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É difícil imaginar que Anne dos Santos, surfista brasileira conhecida pela sua afinidade com ondas pesadas e tubulares, em tempos tenha vivido com medo do mar. Nascida na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, sem qualquer tradição de surf na família, Anne mudou-se para a Austrália aos 8 anos de idade, por decisão da mãe, com pouquíssimo contacto com o oceano e um profundo receio da água.

Foi a sua tia, também surfista e sua treinadora até hoje, quem a iniciou nas ondas. Com apenas 14 anos, enfrentou o localismo agressivo dos picos australianos, transformou o medo em “coragem kamikaze” – palavras suas – e ganhou respeito nas ondas pesadas próximas de sua casa, como Long Reef, Queenscliff e Dead Man’s. Hoje, aos 24 anos, é uma das líderes mundiais de uma nova geração de mulheres que dedicam a sua vida a perseguir ondulações grandes e tubulares um pouco por todo o mundo, enfrentando os picos mais mortais do planeta com o conforto e a destreza de poucos.

A sua estreia em Teahupo’o (Taiti), num swell de 20 pés, marcou-a: surfou na remada, fez tow-in com o apoio de Lucas “Chumbo” Chianca e aprendeu com os melhores do mundo – Nathan e Ivan Florence, Kai Lenny, Billy Kemper e outros. Em 2025, veio o segundo convite consecutivo para o Eddie Aikau Invitational em Waimea Bay, um dos eventos mais exclusivos e prestigiados do surf, e em 2026 o primeiro convite direto dirigido a uma mulher para o Cascais Capítulo Perfeito powered by Billabong, em Portugal, um marco no surf de tubos de elite.

Toda esta jornada é sustentada por uma forte presença feminina na sua vida: a tia que a ensinou e continua a ser sua treinadora, a mãe que a trouxe para a Austrália, a avó que a inspira a viver sem medo e com foco no amor. Esta rede de apoio familiar é o alicerce da confiança que lhe permite continuar a quebrar limites e a afirmar o seu nome em territórios historicamente masculinos.

Lê a entrevista completa com Anne dos Santos e entra na mente de uma das surfistas mais destemidas da nova geração do surf de ondas de consequência.

Anne, nasceste no Brasil mas vives na Austrália desde muito cedo. Essa mudança foi motivada pelo surf?

Não, foi uma decisão da minha mãe. Eu tinha 8 anos. A minha tia já se tinha mudado para cá antes e foi aqui que ela começou a ensinar-me a surfar. Ela estudou Ciências do Desporto e a última tese dela foi sobre surf. É uma ótima professora e hoje em dia é a minha treinadora; evoluímos muito juntas.

E o surf de competição, como surgiu na tua vida? Quando percebeste que tinhas potencial para competir?

Eu sempre quis ser surfista profissional. Competir é uma forma de chegar lá e, sobretudo, de aprender mais sobre mim mesma. Quando perdes muito, começas a tentar descobrir porquê, quais são os erros. Competir ajudou-me a tornar-me uma surfista melhor, a entender melhor o oceano e a mim mesma.

Comecei a competir com 14 anos, mas não era muito boa nos campeonatos. O nível aqui na Austrália é muito alto, toda a gente começa a surfar com 2 anos de idade. Eu sou da Ilha do Governador, no Rio, onde não tem onda. Eu não era confiante no mar, o meu nível era bem mais baixo do que o das meninas daqui. Mas sou guerreira, amo competir e sou competitiva, treinei bastante e consegui subir o nível rápido.

Paralelamente aos campeonatos, o teu caminho levou-te para ondas grandes e pesadas. Como nasceu essa relação com o mar mais sério e quem mais te ajudou nesse processo?

Os meus primeiros anos de vida foram passados longe da praia, o oceano não era confortável para mim. Quando comecei a surfar tinha muito medo. Lembro-me de me sentir aterrorizada, mas por alguma razão eu sempre voltava no dia seguinte. Não sei explicar porquê. Continuei indo todo dia, melhorando.

A minha tia ajudou-me muito. Ela não surfava ondas gigantes mas pegava tubo. Via-a e sabia que era possível. Depois, um amigo – Scott Romain – começou a convidar-me para surfar ondas grandes. Eu era pequenina, não tinha nem 5 pés. Ele viu potencial e disse: “Vamos aos Outer Reefs?”. Surfei muito com ele enquanto crescia.

De repente, com 14 anos, estava a surfar uma onda pesada perto de minha casa – Dead Man’s, uma direita bem grande, pesada, perto da pedra, tubo pesado. Também Queenscliff Bombie; saiu agora um monte de imagens do Tom Myers lá. No início, batíamos esse pico com duas ou três pessoas na água, antes de o lugar se tornar conhecido. Também ia muito para Long Reef Bombie, um pico muito legal para praticar ondas grandes. Tudo perto de minha casa: 20 minutos para Dead Man’s e Queenscliff, 5 minutos para Long Reef.

Aqui na Austrália há muito localismo, tens de ganhar respeito. Se não fores na onda por medo, perdes respeito e não consegues pegar mais nenhuma. A necessidade de ganhar respeito ajudou-me muito – do nada, com 14 anos, não tinha mais medo. Com o tempo, tornei-me uma surfista mais madura e calculada, mas na altura eu era meio kamikaze. (Risos)

Que mudanças técnicas e mentais tiveste de fazer para começar a sentir-te verdadeiramente confiante em ondas grandes e pesadas?

Uma grande ajuda foi o yoga. Comecei aos 11 anos. Eu não sabia que ia surfar ondas grandes, mas já me estava a preparar. A respiração ajuda a acalmar em momentos tensos; os alongamentos ajudam o corpo a aguentar as pancadas fortes. 

Não tenho coach mental, mas tenho a minha avó, que é muito boa com as coisas da vida. Ela vive sem medo, foca no amor e inspira-me muito. A minha tia e a minha mãe também. Tenho uma família irada, muito matriarcal – a minha avó teve sete filhos, temos muitas tias, tios, primos. Passamos muito tempo juntos, é um suporte gigante que me ajuda a manter-me serena e confiante.

Teahupo’o é um lugar que transforma qualquer surfista. O que é que a experiência no Taiti te ensinou sobre respeito, timing e leitura do oceano?

Teahupo’o foi irado!… Um amigo meu, o Tim Bonython – que faz vídeos também aí na Nazaré –, avisou-me do swell. Conversámos e ele ajudou-me a decidir ir pela primeira vez. Cheguei, joguei-me no oceano, não sabia bem o que esperar, mas encarei e consegui pegar algumas ondas. O Lucas Chumbo ofereceu-se para me levar a fazer tow-in. O swell tinha mais de 20 pés, segundo o Surfline. Estar lá com os melhores do mundo – Lucas, Nathan Florence, Ivan Florence, Billy Kemper, Noah Beschen – foi incrível. Aprendi muito só por observar: posicionamento, o que fazer no tubo. O Lucas também me deu imensas dicas. Foi uma viagem incrível para aprender sobre surf de ondas grandes.

Em 2025, competiste pela primeira vez no Eddie Aikau Invitational, no Havai, e recentemente foste novamente convidada para aquele que é um dos eventos mais prestigiados do surf. Como foi a experiência em Waimea Bay e o que significa para ti seres chamada para uma competição que não escolhe atletas por ranking, mas por legitimidade?

Fiquei chocada. Pensei que só entraria no Eddie com 30, 40 anos, quando tivesse mais reconhecimento. Do nada veio o convite. No ano passado fiquei o dia inteiro na praia à espera, calma porque não achava que ia entrar – estava de quinta reserva. De repente chamaram-me porque uma das meninas não quis surfar na bateria dela. Entrei sendo a última da lista de reservas. Foi um sonho realizado. Não acreditava.

Para mim, ocupar esses territórios enquanto mulher é algo natural. Há 3-5 anos não havia vaga para mulheres no Eddie. Agora, há uma geração mais nova – eu, Domi Charrier, Laura Coviella, Kirra Pinkerton – que quer puxar o nível em ondas grandes e tubos. Temos de nos colocar para a frente e abrir caminho. Carrego a força das meninas que vieram antes: Maya Gabeira, Pam Burridge e outras que puxaram o nível para eu poder fazer o que faço hoje.

Foste também convidada para a edição deste ano do Capítulo Perfeito, em Portugal, sendo a primeira mulher a receber um convite direto para este campeonato dedicado exclusivamente a tubos. Como te sentes por ires competir entre um leque inter-geracional de tube riders de elite que vai desde o lendário Rob Machado a surfistas mais novos como Nic von Rupp, Noah Beschen e Tosh Tudor? Sentes-te intimidada ou dá-te ainda mais força para competir e vencer?

Não me sinto intimidada. Entro tentando pegar a energia do evento, mostrar o meu surf e aprender o máximo possível com eles. Amo ondas tubulares. O tubo é a melhor coisa do surf. Um evento que só rola nas melhores ondas do ano é tudo o que um surfista quer. É uma honra ter sido convidada e, se tudo se alinhar, vai vir uma onda perfeita para mim – e para todo mundo.

Sentes o peso da representação feminina por seres a primeira mulher a receber um convite direto?

Sinto que já fui a primeira em várias coisas. Quero mostrar que as mulheres conseguem, abrir caminho para a geração futura. Mas carrego a força das que vieram antes.

Tanto o Eddie Aikau como o Capítulo Perfeito são eventos que dependem das condições do mar para acontecer (não têm data fixa). Como lidas com essa flexibilidade e o stress adicional de não saberes ao certo quando vais competir?

Não sinto muito stress. A vida de surfista de ondas grandes já é assim: vês um swell de última hora e fazes de tudo para chegar lá. Esses eventos são a representação do que fiz nos últimos anos. Tenho confiança que consigo fazer de novo a qualquer momento.

Quais são os teus objetivos para 2026 e a longo prazo?

Acabei de decidir que este ano não vou fazer campeonatos tradicionais, só um ou dois se forem perto de casa. Vou-me focar no free surf. Amo competir e aprendo muito, mas às vezes tinha campeonato e perdia swells incríveis porque estava comprometida. Não consigo mais fazer isso. Quero viajar para lugares diferentes, fazer eventos como o Capítulo Perfeito que só chamam quando há altas ondas. Quero estar livre para ir atrás das melhores condições e surfar as melhores ondas do planeta, que é o que eu mais amo fazer.

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