Do Tejo ao Atlântico Tropical: os blocos que estão a reinventar o Carnaval em Portugal e no Brasil

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Da ocupação festiva do espaço público em Lisboa à explosão cultural das ruas brasileiras, os blocos de Carnaval são hoje muito mais do que festa: são identidade, política, comunidade e celebração coletiva. De 13 a 17 de fevereiro, Portugal e Brasil vivem o auge do Carnaval, com dezenas de desfiles, blocos e festas espalhados pelas cidades. Descobre a nossa seleção dos blocos mais emblemáticos e prepara-te para viver a folia de perto!

Portugal: O Carnaval que cresceu na rua

Nos últimos anos, Portugal (e Lisboa em particular) assistiu ao nascimento de um Carnaval de rua inspirado no Brasil, mas com identidade própria. Movido sobretudo por comunidades migrantes, artistas e coletivos independentes, este Carnaval é plural, político e cada vez mais incontornável.

1. Colombina Clandestina

O maior e mais expressivo bloco de Lisboa. Criado em 2017 por mulheres migrantes brasileiras, posiciona-se como movimento de resistência feminista e antirracista. O desfile é uma explosão visual de cores e figurinos que desafiam normas de género, com uma bateria que mistura funk, axé, samba e outros ritmos brasileiros. Este bloco dialoga diretamente com a cultura local ao incluir elementos de Fado e artistas portugueses (como António Variações) no seu repertório. Atrai mais de 10.000 pessoas pelas ruas de Alfama e Graça, revitalizando bairros antigos da cidade.

2. Blocu

Um dos blocos mais queer e cosmopolitas da cidade, funcionando como um espaço de resistência política e liberdade individual. Ao contrário dos blocos tradicionais, o Blocu funde a energia do Carnaval (marchinhas, ritmos brasileiros) com a música eletrónica (techno, house e batidas contemporâneas), o que lhe confere uma aura de “rave de rua” com forte presença da comunidade LGBTQIA+.

3. Bué Tolo

Inspirado no Boi Tolo do Rio, o Bué Tolo foca-se na essência do Carnaval: a ocupação espontânea e o prazer de tocar. Tal como o “irmão” carioca, é um bloco conhecido pela sua natureza anárquica, itinerante e sem horários fixos. Aposta numa bateria poderosa que celebra o samba e ritmos brasileiros clássicos num ambiente irreverente e “descomplicado”, atraindo quem procura uma festa genuína e sem pretensões.

4. Baque do Tejo

Grupo de maracatu que leva às ruas de Lisboa os ritmos afro-brasileiros e a herança pernambucana. Nas suas apresentações, a força da percussão e das alfaias cria uma experiência visual e sonora profunda, mantendo viva a tradição do maracatu em solo português.

5. Baque Mulher Lisboa

Coletivo percussivo feminista, formado maioritariamente por mulheres, que faz do tambor um instrumento de emancipação e afirmação política. Os seus desfiles são atos de celebração do corpo, da força e da ocupação feminina do espaço público. Através do Maracatu de Baque Virado, cruza o ritmo ancestral e sagrado com a luta contemporânea por direitos, igualdade e visibilidade.

6. Palhinha Maluca

Um dos blocos mais lúdicos e familiares de Lisboa. Destaca-se por uma abordagem informal e bem-humorada, inspirada no espírito dos carnavais populares de bairro. O coletivo aposta em fantasias criativas, marchinhas e repertório festivo, privilegiando a participação espontânea e a convivência no espaço público. Sem recorrer a grandes produções, afirma-se como um bloco acessível e descontraído dentro do Carnaval lisboeta.

7. Qui Nem Jiló

O nome é uma homenagem direta a Luiz Gonzaga (o “Rei do Baião”), inspirando-se no clássico “Qui Nem Jiló”. Este coletivo é pioneiro em trazer as sonoridades do Nordeste brasileiro para o Carnaval de rua de Lisboa, celebrando o forró, o baião e o xote. O seu grande diferencial é a atmosfera de “baile de rua”, onde a sofisticação rítmica do triângulo, da sanfona e da zabumba convida o público a dançar a par. Com uma base comunitária forte na zona da Penha de França, afirma-se como um bloco orgânico, familiar e focado no afeto, atraindo quem procura uma celebração genuína, sem grandes artifícios, mas com uma musicalidade impecável.

8. Boi Tabaco

Um dos blocos mais vibrantes de Lisboa, fundado por recifenses com a missão de espalhar a energia do frevo pela capital portuguesa. Focado na cultura pernambucana, o coletivo destaca-se pela sua banda de metais e som contagiante, transformando as ruas num verdadeiro reduto da folia nordestina. É um espaço de resistência e celebração da memória brasileira, convidando todos a “cair no passo” num ambiente de pura alegria e pertencimento.

9. Bloco Secretinho

O Secretinho estreou-se no Carnaval de Lisboa como um bloco carnavalesco de propostas híbridas, combinando cortejo com música ao vivo e DJ sets que atravessam o samba, pop brasileiro, techno, funk e outras sonoridades variadas. O projeto mistura um desfile às margens do Tejo com concertos e festas em Marvila, integrando-se na programação carnavalesca da cidade.

10. Sardinhas Nômades

Fanfarra carnavalesca itinerante com forte dimensão performativa. Com um repertório que cruza samba, axé e outras sonoridades globais, o coletivo aposta numa ocupação dinâmica do espaço público e numa estética irreverente que dialoga com o imaginário urbano de Lisboa. É aqui que o coletivo brilha: o uso de adereços, cores e referências à sardinha não é apenas um detalhe; é uma homenagem clara às festas populares de Lisboa (Santos Populares), fundindo o espírito do Carnaval brasileiro com a alma alfacinha.

O Carnaval de rua em Lisboa é amplo, diverso e em constante crescimento. O Bloco Cuiqueiros de Lisboa, com forte ligação ao samba e à percussão tradicional, o Bloco Oxalá, enraizado nas matrizes afro-brasileiras e na celebração da ancestralidade, e o Bloco Pandeiro LX, conhecido pela sua abordagem mais intimista e comunitária, são outras recomendações da GOB para quem quer explorar e aprofundar a experiência carnavalesca na capital portuguesa. Juntos, estes coletivos reforçam a vitalidade de um Carnaval que se constrói na rua, na diversidade e na partilha.

Brasil: Onde o Carnaval nunca deixou a rua


1. Galo da Madrugada (Recife)
Reconhecido como o maior bloco de Carnaval do mundo, o Galo da Madrugada arrasta milhões de foliões pelas ruas do Recife ao som do frevo. Criado em 1978, tornou-se um símbolo absoluto da cultura popular pernambucana, afirmando o Carnaval como festa democrática, gratuita e profundamente ligada à identidade local.

2. Cordão da Bola Preta (Rio de Janeiro)
Fundado em 1918, é o bloco mais antigo e tradicional do Rio de Janeiro. Conhecido pelas marchinhas clássicas e pelo seu estandarte icónico, o Bola Preta atravessou um século de história mantendo-se como ponto de encontro intergeracional e um dos maiores símbolos do Carnaval carioca.

3. Monobloco (Rio de Janeiro)
Nascido como oficina de percussão, o Monobloco tornou-se um dos blocos mais populares do país. A sua marca é a fusão entre samba, MPB, pop e rock brasileiro, criando um repertório transversal que atrai públicos diversos e reflete um Carnaval contemporâneo e musicalmente híbrido.

4. Amigos da Onça (Rio de Janeiro)

Referência da renovação do Carnaval de rua carioca, o Amigos da Onça destaca-se pela sua estética marcante e performance eletrizante. Com uma banda de sopros e percussão de alto nível técnico, o bloco funde ritmos brasileiros com uma atitude próxima do rock, atraindo uma multidão vestida com as icónicas estampas de onça. Mais do que um desfile, é um espetáculo de ocupação urbana que celebra a liberdade, a irreverência e a “ferocidade” da alegria coletiva, consolidando-se como um dos blocos mais vibrantes e visualmente impactantes da atualidade.

5. Olodum (Salvador)
Mais do que um bloco, o Olodum é um movimento cultural e político afro-baiano. Fundado em 1979, revolucionou a música brasileira com o samba-reggae e tornou-se um símbolo internacional da luta antirracista, da valorização da cultura negra e da afirmação da identidade afro-brasileira.

6. Ilê Aiyê (Salvador)
Fundado em 1974, é o mais antigo bloco afro do Brasil. O Ilê Aiyê desfila afirmando o orgulho negro, a ancestralidade africana e a valorização estética e cultural da população negra, desempenhando um papel fundamental na construção de consciência racial e cultural no Carnaval baiano.

7. Acadêmicos do Baixo Augusta (São Paulo)
Símbolo do renascimento do Carnaval de rua paulistano, este bloco nasceu da ocupação cultural da cidade. Combina música brasileira, crítica política e defesa da diversidade sexual e de género, afirmando São Paulo como um dos novos centros do Carnaval popular no Brasil.

8. Então, Brilha! (Belo Horizonte)
Fundado em 2010, foi decisivo para a explosão do Carnaval de Belo Horizonte. Conhecido pelo seu caráter poético e inclusivo, aposta na ocupação simbólica do espaço urbano, na alegria coletiva e na construção de um Carnaval horizontal, comunitário e profundamente afetivo.

9. Blocos de Olinda (Pernambuco)
Em Olinda, o Carnaval não pertence a um único bloco: a cidade inteira transforma-se em festa. Bonecos gigantes, frevo e ladeiras tomadas por foliões criam um dos Carnavais mais icónicos do mundo, onde tradição, irreverência e ocupação total do espaço público se fundem.

10. Unidos da Cachorra (Fortaleza)
Nascido em 1997, este bloco transformou a folia cearense com a sua bateria potente e ritmos contagiantes. Tornou-se um símbolo da ocupação do espaço público, reunindo moradores e visitantes numa celebração democrática, vibrante e popular. Com cores marcantes e uma energia solar inconfundível, o bloco privilegia a alegria pura e a batucada autêntica à beira-mar, sendo indispensável para quem quer sentir o Carnaval de Fortaleza em estado bruto. Essência pura do Ceará.

Do Tejo ao Atlântico Tropical, os blocos de Carnaval revelam-se hoje como poderosos espaços de reafirmação cultural, resistência e encontro coletivo. Em Portugal, especialmente em Lisboa, o que começou como tradição brasileira transformou-se num movimento autêntico e plural, com quase duas dezenas de blocos previstos para 2026, ocupando ruas, bairros históricos e o imaginário urbano com ritmos, identidades migrantes e lutas contemporâneas. No Brasil, onde a rua nunca deixou de ser o palco principal, os blocos continuam a renovar tradições centenárias enquanto abraçam novas vozes, diversidade e crítica social.

De um lado e do outro do oceano, estes coletivos provam que o Carnaval vai muito além da folia: é uma celebração viva da identidade, da comunidade e da possibilidade de reinventar o espaço público com alegria, política e pertencimento. Não fiques de fora: sai à rua, descobre os blocos, sente os ritmos e vive o Carnaval de perto em toda a sua diversidade e energia!

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