Chega o fim do ano e o mundo inteiro parece perder a cabeça – no bom sentido! Uns partem pratos nas portas dos vizinhos como votos de boa sorte, outros correm pela rua arrastando malas vazias à procura de viagens imaginárias, há quem engula 12 uvas em 12 segundos sem engasgar e ainda há quem salte ondas de costas para o mar para não dar azar. Esquece o banal “feliz ano novo” com champanhe morno e promessas que vais esquecer em fevereiro: estas tradições provam que a humanidade, quando quer mandar o ano velho embora, faz questão de o fazer com barulho, superstição e uma dose generosa de loucura coletiva. Preparada para uma volta ao mundo das tradições mais originais de Ano Novo?
Dinamarca: Quebrar pratos nas portas e saltar de cadeiras
Na Dinamarca, ao longo do ano, as famílias guardam pratos e copos velhos ou partidos para, na noite de 31 de dezembro, os atirarem contra as portas de amigos e familiares. Quanto maior a pilha de louça quebrada à entrada de casa na manhã de 1 de janeiro, maior a popularidade e a sorte que se acredita atrair para o novo ano. Esta tradição simboliza a expulsão de energias negativas e o reforço de laços sociais.
Outra tradição divertida e simbólica que marca a passagem de ano na Dinamarca: à meia-noite de 31 de dezembro, as pessoas sobem para uma cadeira ou sofá e saltam exatamente quando o relógio marca o novo ano. Este salto representa “pular” para o ano novo com energia e boa fortuna, deixando para trás o antigo. É uma prática familiar e alegre, muitas vezes acompanhada de brindes e fogos de artifício, que reforça o otimismo e a renovação.
Brasil: Oferendas a Iemanjá e 7 saltos no mar
No Brasil, a passagem de ano em 31 de dezembro ganha um toque espiritual único nas praias, influenciado pelas tradições do Candomblé e Umbanda. Milhões vestem branco como símbolo de paz, pureza e renovação, dirigindo-se ao mar para homenagear Iemanjá, a orixá das águas e protetora dos pescadores. À meia-noite, oferecem flores brancas, velas, perfumes e pequenos barcos com mensagens, enquanto saltam sete ondas de costas viradas para o oceano – cada salto representa um pedido de desejo ou gratidão por algo do ano que termina. Diz a crença que não se deve virar as costas ao mar até sair da água, para evitar levar má sorte. Praias como Copacabana, no Rio de Janeiro, transformam-se em cenários mágicos de luzes, música ao vivo e uma energia coletiva de esperança.


China: Dragões, vermelho e a expulsão do mal
Embora varie de ano para ano, geralmente em janeiro ou fevereiro, o Ano Novo Lunar chinês é uma das maiores migrações humanas do mundo, com famílias a reunirem-se para jantares abundantes. O vermelho domina: envelopes com dinheiro (hongbao) para as crianças, decorações para afastar o mítico monstro Nian e fogos de artifício ensurdecedores que ecoam a lenda antiga de espantar a besta com ruído e luz. Danças de leão e dragão percorrem as ruas para trazer prosperidade, enquanto pratos simbólicos como peixe (para abundância) e dumplings (para riqueza) enchem as mesas. É uma celebração ruidosa e familiar que dura 15 dias, culminando no Festival das Lanternas, onde o foco está na união e na expulsão simbólica das energias negativas.
Espanha: As 12 uvas da sorte
Em Espanha, a tradição das “doze uvas da sorte” acontece exatamente à meia-noite de 31 de dezembro, centrada na Puerta del Sol em Madrid, onde milhares se reúnem para ouvir as badaladas do relógio da Casa de Correos. A cada uma das 12 badaladas, come-se uma uva verde sem grainha, totalizando uma por mês do ano novo, para garantir prosperidade e afastar infortúnios. Surgida no final do século XIX como forma de escoar excedentes de uva, tornou-se um ritual frenético e divertido, transmitido em direto pela televisão, com famílias em casa a prepararem taças antecipadamente.
Escócia: Purificação pelo fogo
Hogmanay, a celebração escocesa do Ano Novo, estende-se de 30 de dezembro a 2 de janeiro, com raízes em tradições vikings e celtas de purificação pelo fogo. Em Edimburgo, a procissão de tochas ilumina as ruas com milhares de participantes carregando chamas, simbolizando a luz que afasta o inverno escuro. O “first-footing” é o costume de a primeira pessoa a entrar em casa após a meia-noite trazer presentes como whisky, carvão ou bolo de frutas (black bun) para boa sorte – idealmente um homem alto e moreno. Festas incluem música tradicional e o canto de “Auld Lang Syne”, canção baseada num poema de Robert Burns (século XVIII) que fala de lembrar e valorizar velhas amizades e experiências passadas.

Filipinas: Frutas redondas e bolinhas
Nas Filipinas, o Ano Novo a 31 de dezembro é celebrado com um foco em formas redondas para atrair prosperidade, já que círculos lembram moedas e abundância. As mesas enchem-se de 12 ou 13 frutas redondas, como laranjas, maçãs, uvas e melancias, representando os meses do ano e boa sorte. Muitos vestem roupas com bolinhas (polka dots) para reforçar o simbolismo, e há barulho intenso com fogos e panelas para afastar maus espíritos. É uma festa vibrante de esperança e riqueza.
Colômbia: Correr com malas vazias
Na Colômbia e noutros países da América Latina, quem deseja um ano cheio de viagens corre à volta do quarteirão com uma mala vazia exatamente à meia-noite de 31 de dezembro. Este ritual simbólico representa o “preenchimento” da mala com aventuras e destinos novos, sendo comum ver pessoas nas ruas a arrastarem malas de todos os tamanhos, numa mistura divertida de superstição e otimismo por explorações futuras.
Coreia do Sul: Observar o primeiro nascer do sol
Na Coreia do Sul, embora o Seollal (Ano Novo lunar) seja o principal, muitos celebram o gregoriano com uma tradição poética: milhares sobem a montanhas, praias ou pontos altos como o Monte Seoraksan ou a praia de Haeundae para ver o primeiro nascer do sol do ano (ilchul). Acredita-se que este momento traz boa sorte, saúde e realização de desejos. As pessoas vestem-se com roupas quentes, levam mantas e partilham comida, criando uma atmosfera de esperança coletiva ao amanhecer de 1 de janeiro.
Grécia: Esmagar romãs
Na Grécia, logo após a meia-noite de 1 de janeiro, é tradição esmagar uma romã contra a porta de casa. Quanto mais sementes se espalharem pelo chão, maior a abundância, prosperidade e boa sorte que se acredita vir para a família no novo ano. A romã, símbolo antigo de fertilidade e riqueza, é atirada com força, transformando o momento numa explosão vermelha de esperança e celebração coletiva.
África do Sul: Carnaval em dezembro e deitar objectos velhos pela janela
Embora o ponto alto seja a 2 de janeiro (conhecido como Tweede Nuwe Jaar ou “Segundo Ano Novo”), na Cidade do Cabo as celebrações começam na véspera de Ano Novo e estendem-se com o famoso Cape Town Minstrel Carnival (Kaapse Klopse). Milhares de troupes vestem fatos coloridos, pintam o rosto e desfilam pelas ruas com bandas de metais, banjos e guitarras, cantando moppies (canções satíricas). Esta tradição tem raízes na época da escravatura, quando os escravos tinham o dia 2 como folga, transformando-se numa explosão de música, dança e sátira que atrai centenas de milhares.
Em alguns bairros de Joanesburgo, como Hillbrow, havia a tradição radical de, à meia-noite, deitar móveis velhos, electrodomésticos e objectos indesejados pela janela – literalmente “fora com o velho, dentro com o novo”. Simbolizava renovação total, mas tornou-se perigosa (causava acidentes) e hoje é desencorajada e até proibida pela polícia. Ainda assim, persiste em histórias e memórias como uma das práticas mais extremas de Ano Novo no continente.
Nigéria: Watch Night Services em igrejas
Em muitos países africanos com forte influência cristã, a noite de 31 de dezembro passa-se em vigília nas igrejas (Watch Night Service). As pessoas reúnem-se para orar, cantar hinos e refletir até à meia-noite, agradecendo o ano que termina e pedindo bênçãos para o novo. Na Nigéria, é comum combinar com masquerades (danças com máscaras) que saem à rua para “limpar” ritualmente as comunidades e afastar maus espíritos. É uma tradição profunda de fé e purificação coletiva, muitas vezes seguida de festas familiares.
Japão: 108 badaladas à meia-noite
No Japão, onde o Ano Novo (Oshogatsu) é uma das festas mais importantes, a noite de 31 de dezembro é marcada pelo Joya no Kane: em templos budistas por todo o país, os sinos tocam exatamente 108 vezes à meia-noite. Este número simboliza as 108 paixões ou desejos mundanos que, segundo o budismo, causam sofrimento – cada toque purifica uma delas, permitindo um início limpo e sereno. Muitos japoneses comem toshikoshi soba (macarrão de trigo sarraceno longo) para simbolizar a transição suave para o novo ciclo, e no dia 1, contemplam o primeiro nascer do sol (hatsuhinode) para atrair boa energia.
Estas tradições, longe dos costumes dominantes no Ocidente, mostram como o Ano Novo pode ser um momento de purificação radical, homenagem à natureza ou explosão de alegria comunitária. De romãs esmagadas na Grécia a 108 badaladas purificadoras no Japão, de procissões de tochas na Escócia a fogos ensurdecedores na China para assustar monstros míticos, no fim das contas estamos todos a fazer a mesma coisa: a dar um pontapé simbólico no traseiro do ano que passou e a abrir a porta (às vezes literalmente) para um novo ciclo cheio de esperança, sorte e zero energias negativas. Então, este ano, escolhe um destes rituais e experimenta – porque, convenhamos, brindar com os amigos é bom, mas brindar depois de saltar de uma cadeira ou correr com uma mala vazia à volta do quarteirão… isso sim é que é entrar em grande!
Feliz Ano Novo, cheio de energia positiva e muita, muita sorte!