Muitas vezes sentimos que somos várias mulheres numa só. Há dias em que acordamos com a garra de uma guerreira, prontos para conquistar o mundo, e outros em que o silêncio e o recolhimento são as nossas únicas necessidades. Na psicologia e na espiritualidade feminina, entendemos que não somos lineares; somos cíclicas.
Quando aprendemos a reconhecer quais forças arquetípicas estão ativas em nós, deixamos de nos violentar tentando “render igual” todos os dias. Passamos a cooperar com a nossa energia, em vez de lutar contra ela.
É aqui que entra o encontro poderoso entre os Arquétipos das Deusas Gregas, que refletem desejos, padrões e impulsos da psique, e as Fases da Lua, que influenciam o nosso ritmo emocional, criativo e biológico. Juntas, elas tornam-se uma bússola prática para decisões, autocuidado, trabalho, relações e bem-estar.
A primavera da mente: a lua crescente e a Donzela
A Lua Crescente marca o momento em que a energia começa a subir novamente. É o momento de sair da caverna e agir. Aqui, somos guiadas principalmente por duas deusas de ação: Artemis e Atena.
Depois do recolhimento da Lua Nova, algo desperta: vontade, curiosidade, impulso. É a fase do “quero tentar”, do primeiro passo, do movimento que ainda não precisa de perfeição.
Artemis representa a mulher selvagem, autónoma e conectada à natureza. É a deusa da caça e da independência. Quando ela está ativa, sentes uma necessidade visceral de liberdade, de estar na natureza e de te focares nos teus próprios objetivos, sem precisar da aprovação de ninguém.
É a energia ideal para desportos, dizer “não” sem culpa e para reforçar a tua autonomia, com decisões que exigem coragem. Artemis lembra-te que a tua vida te pertence.
Já Atena traz o lado intelectual, com clareza, estratégia e foco. Ela é a deusa da sabedoria e entra como contraponto racional e estruturado. Com ela, a tua mente fica afiada, lógica e excelente para planear negócios ou resolver problemas complexos, de forma lúcida, com visão estratégica e inteligência aplicada. É a fase perfeita para o “fazer acontecer”, como organizar projetos, definir metas realistas e tomar decisões profissionais.
Pergunta-chave desta fase:
Onde posso agir agora com mais coragem e inteligência combinadas?
O verão da alma: a lua cheia e a Mãe
A Lua Cheia é o auge do ciclo. Tudo está visível, intenso, amplificado. Aqui, a energia transborda — emocional, criativa, social. É quando somos vistas e também quando nos vemos com mais clareza.
É o arquétipo da Mãe, mas que vai muito além da maternidade física. É a fase da nutrição e da celebração, onde brilham Afrodite e Deméter.
Afrodite, a deusa do amor e da beleza, não fala apenas de romance, mas de magnetismo e criatividade. Ela é o prazer de estar viva. Quando Afrodite comanda a tua Lua Cheia, sentes-te mais radiante, inspirada a cuidar da tua estética e a colocar paixão em tudo o que fazes. É o momento de seduzir a vida. Sentes-te mais confiante no corpo, há vontade de te arranjares e criares, enquanto as emoções vêm à superfície com intensidade.
É um ótimo momento para projetos criativos; encontros, eventos, celebrações, além de trabalhar autoestima e expressão pessoal. Afrodite ensina que o prazer também é espiritual.
Paralelamente, temos Deméter, a deusa da colheita. Ela representa o amor que sustenta, que espera, que cuida. Não é sobre sacrifício, mas sobre presença. É o tempo de colher o que foi plantado e celebrar em comunidade.
Com Deméter ativa, surge vontade de apoiar outras pessoas e o cuidado vira gesto político. É uma ótima fase para sentir satisfação em ver os frutos que plantaste e aproveitar para fortalecer laços e reconhecer o teu próprio crescimento.
Pergunta-chave desta fase:
O que está pronto para ser celebrado — em mim e à minha volta?
O outono da psique: a lua minguante e a Feiticeira
Quando a lua começa a diminuir, a nossa energia também se volta para dentro. O mundo externo perde prioridade. A alma pede escuta.
Entramos no território da Feiticeira, uma fase poderosa, mas pouco valorizada numa cultura que idolatra produtividade constante. Aqui, as deusas de “profundidade” como Perséfone e Hera tomam o comando.
Perséfone é a deusa que transita entre o mundo dos vivos e o submundo. Ela traz uma intuição aguçada e uma facilidade enorme para aceder ao inconsciente. Ela conhece a luz, mas também a sombra.
É a altura ideal para fazer terapia, analisar sonhos, fazer escrita instropectiva ou mudar hábitos enraizados a fim de encerrar ciclos. É uma fase de transformação profunda onde tudo ganha mais intensidade.
Por outro lado, a energia de Hera, a deusa do compromisso e da estrutura, pode manifestar-se como uma necessidade de colocar limites claros e de avaliar onde estás a investir a tua lealdade. É a hora de filtrar o que fica e o que sai da tua vida para o próximo ciclo. Esta deusa fala de lealdade — mas não a qualquer custo. Ela pergunta: onde estás a investir energia sem retorno emocional?
É o momento para reavaliar relações e onde podes pôr limites mais claros a fim de te preservares.
Pergunta-chave desta fase:
O que já cumpriu o seu papel e precisa ser deixado para trás?
O inverno do ser: a lua nova e a Anciã
A Lua Nova é o ponto de escuridão total no céu, mas também o lugar onde as sementes mais fortes são plantadas. Ela é silêncio. Nada é visível, mas tudo está a ser gestado.
É o arquétipo da Anciã, a mulher sábia que não precisa de provar nada a ninguém. A deusa que melhor representa este estado é Héstia.
Héstia é a guardiã do fogo sagrado e do lar. Não o fogo que consome, mas o que aquece. Ela representa o foco interno e a paz que vem de estares sozinha contigo mesma. Quando Héstia guia a tua Lua Nova, o barulho do mundo lá fora deixa de importar, pois a espiritualidade torna-se simples e íntima, enquanto que o mundo externo perde importância.
É tempo de recolhimento espiritual, de meditação e de descanso profundo, sem culpa. É nesta “escuridão” que ouves a tua verdadeira essência antes de recomeçar tudo de novo. A Anciã sabe que, para o novo nascer, o velho precisa de um funeral digno e silencioso. Ela lembra-te que o silêncio também é criação.
É o território da Anciã — a mulher que já não precisa provar nada.
Pergunta-chave desta fase:
O que precisa morrer em mim para que algo novo possa nascer?
Explorando o feminino arquetípico na tua vida
Compreender estes ciclos muda tudo. Deixas de te cobrar constância e começas a honrar o ritmo.
Se estás na fase Héstia/Lua Nova, não te culpes por não teres energia para uma festa. Se estás em Artemis/Lua Crescente, aproveita para dar aquele gás nos teus treinos, por exemplo.
Agora que já conheces as deusas e as luas que habitam em ti, o convite é para passares da teoria à prática. O autoconhecimento só se torna expansão de consciência quando o vivemos no corpo, pois o equilíbrio não é ser estável; é aprender a dançar conforme a música de cada fase.
Reserva 10 minutos do teu dia e segue esta pequena prática de conexão:
- Pausa de respiração (1 min): Senta-te confortavelmente, fecha os olhos e respira fundo três vezes. Traz a atenção para dentro e observa como te estás a sentir agora, sem julgamentos.
- Escuta da intuição (2 min): Pergunta a ti mesma: “O que é que o meu corpo ou a minha intuição me querem mostrar hoje?”. Apenas observa a primeira sensação, imagem ou palavra que surgir.
- Conexão com ciclos (2 min): Nota em que momento estás do teu ciclo (físico, emocional ou até lunar/estacional). Pergunta: “Que energia este ciclo me traz agora: recolhimento, ação, criação ou partilha?”.
- Toque de criatividade (3–5 min): Expressa o que sentiste num gesto criativo rápido: escreve uma palavra no diário, rabisca um desenho, cantarola uma música, dança um minuto ou, simplesmente, escolhe uma cor para o teu dia.
- Encerramento (30s): Agradece a ti mesma pelo tempo dedicado. Se quiseres, anota uma pequena intenção para o dia.
A expansão acontece nos pequenos momentos de presença. Que estas deusas te guiem num Janeiro (e num ano) de muito poder e descoberta.