As primeiras semanas dos Jogos de Inverno em Milão e Cortina d’Ampezzo na Itália já entregaram muito mais do que apenas neve (que, por sinal, é boa parte artificial). Entre vilas olímpicas luxuosas e protestos nas ruas de Milão, aqui está o que você precisa saber até agora.
Sustentabilidade e o desafio climático
Os Jogos de Inverno de 2026 estão sendo promovidos como uma das edições mais sustentáveis da história, focando na utilização de infraestruturas existentes e temporárias para reduzir a pegada de carbono e focando em um modelo de economia circular.
A estratégia de infraestrutura
Para alcançar a meta de ser uma das edições mais sustentáveis da história, a organização apostou em três pilares:
– Uso de Instalações Existentes: Mais de 90% das sedes já existem ou serão temporárias, distribuídas entre Milão, Cortina d’Ampezzo e outras vilas alpinas.
– Corte de Emissões: A meta é reduzir em 35% a emissão de gases de efeito estufa em comparação aos Jogos de Pyeongchang 2018.
– Regeneração Urbana: Em vez de erguer “elefantes brancos”, o foco está na revitalização de áreas urbanas já consolidadas.
O paradoxo da neve artificial
Entretanto, a sustentabilidade estrutural esbarra em uma ironia climática. Segundo dados do Instituto Talanoa, cerca de 85% da neve utilizada nas pistas atuais seja artificial. Essa dependência tecnológica não é apenas uma projeção, mas uma realidade consolidada nas últimas edições olímpicas:
– Sochi (2014): Aproximadamente 80% de neve artificial.
– PyeongChang (2018): Cerca de 98%.
– Pequim (2022): A primeira edição a utilizar 100% de neve produzida.
E o motivo para isso, todos já sabem: o aquecimento global.
Isso cria o chamado “paradoxo da adaptação”: enquanto o evento economiza carbono na construção, ele é forçado a consumir volumes massivos de água e energia para “fabricar” o inverno. Esse cenário reforça que, embora a infraestrutura seja exemplar, o futuro dos esportes de inverno permanece sob alerta máximo.
As grandes conquistas (até agora)
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O “rei da neve”: O suíço Franjo von Allmen é o nome dos Jogos. No dia 11 de fevereiro, ele faturou seu terceiro ouro ao vencer o Super G masculino. Ele já tinha vencido o Downhill e o Combinado. O cara está imparável!
Dobradinha no biatlo: O norueguês Johannes Thingnes Bø reafirmou sua lenda ao conquistar o ouro na perseguição individual, demonstrando uma precisão impecável no tiro e uma velocidade absurda nos esquis.
Esqui cross-country: Outro norueguês a fazer história é Johannes Høsflot Klæbo que já conquistou o seu nono ouro olímpico, consolidando o recorde absoluto de ouros no cross-country skiing e na história geral dos Jogos de Inverno.
Domínio holandês: No Speed Skating (1000m feminino), Jutta Leerdam e Femke Kok fizeram dobradinha de ouro e prata, ambas quebrando o recorde olímpico anterior. Já no short track, Xandra Velzeboer continuou a impressionar, acrescentando mais um ouro ao domínio neerlandês no gelo e consolidando a forte campanha de sua equipa.
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Brasil no pódio: O norueguês-brasileiro Lucas Pinheiro Braathen (competindo pelo Brasil) garantiu um pódio histórico no Slalom Gigante, trazendo uma medalha inédita para o país nos Jogos Olímpicos de Inverno.
Pequenos gigantes: A Eslovênia surpreendeu e levou o primeiro ouro no Salto de Esqui por Equipe Mista, batendo potências como a Noruega.
Hóquei feminino: A Itália conseguiu uma vitória histórica sobre o Japão, garantindo vaga nas quartas de final pela primeira vez.
Snowboard: No dia 12 de fevereiro, a jovem Choi Gaon (Coreia do Sul) surpreendeu tudo e todos ao vencer a lenda Chloe Kim no Halfpipe feminino.
Ski jumping – Super Team: A Áustria conquistou ouro na estreia da prova masculina de super team ski jump, apesar de o evento ter sido encurtado devido ao mau tempo. O formato, estreado em Milão-Cortina 2026, reúne dois atletas por país no caso, Jan Hoerl e Stephan Embacher, que somam as suas pontuações (distância e técnica) num modelo mais dinâmico e compacto do que as provas tradicionais por equipas.
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Monobob: Elana Meyers Taylor (EUA), aos 41 anos, fez história ao ganhar seu primeiro título olímpico no monobob, tornando-se a mulher americana mais velha a vencer ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno.
Geórgia no pódio: Anastasiia Metelkina e Luka Berulava conquistaram a primeira medalha olímpica da história do seu país nos Jogos de Inverno, levando prata na patinação artística em dupla.
Ouro, superação e drama: No slopestyle feminino do esqui estilo livre, a suíça Mathilde Gremaud conquistou o ouro após uma campanha consistente e tecnicamente sólida. A vitória ganhou ainda mais destaque porque a atleta sofreu uma queda forte nos treinos do big air dias antes, o que a impediu de disputar essa outra prova.
Quadro de medalhas: No início da tarde do dia 17 de fevereiro, 75 de 116 eventos já haviam sido concluídos, com a Noruega liderando o quadro de medalhas com 29 (13 de ouro, 7 de prata e 9 de bronze), seguida pela Itália com 23 (8 de ouro, 4 de prata e 11 de bronze) e os EUA com 19 (6 de ouro, 8 de prata e 5 de bronze).
As polêmicas e curiosidades dos bastidores de Milão-Cortina 2026
Além do quadro de medalhas e dos recordes batidos, a história das Olimpíadas é escrita nos detalhes. Dos protestos à estreia de novas bandeiras no gelo, estes foram os momentos que definiram a identidade desta edição.
Duas piras: Pela primeira vez, os Jogos têm uma abertura descentralizada com duas piras olímpicas acesas simultaneamente (Milão e Cortina).
Protestos em Milão: Enquanto Cortina d’Ampezzo vive o sonho olímpico, Milão enfrentou protestos violentos contra os altos custos dos Jogos, além do efeito ambiental insustentável. Outra polémica que fomentou os protestos foi a presença do ICE (Serviço de Imigração dos Estados Unidos). Apesar dos agentes estarem a dar apenas apoio logístico, isso não impediu os protestos, com muitos críticos a exigirem ao governo italiano que imponha a expulsão deles.
92% de reuso: Os Jogos estão sendo vendidos como os mais sustentáveis da história, usando quase que exclusivamente estruturas já existentes ou temporárias.
Fashionismo olímpico: O Brasil também venceu no quesito estilo. O uniforme da abertura, uma colaboração entre o estilista brasileiro Oskar Metsavaht e a luxuosa Moncler, foi aclamado como um dos mais bonitos e funcionais do evento, unindo o design tropical à tecnologia de isolamento europeia.
O “escândalo da virilha”: Sim, você leu certo. No salto com esqui, surgiu uma investigação bizarra sobre atletas que estariam tentando ganhar vantagem aerodinâmica através de manipulações anatômicas (uso de preenchimentos ou “ácido”) para aumentar o volume da roupa e planar por mais tempo. O tribunal esportivo já está de olho.
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Sempre há uma primeira vez: Os Emirados Árabes Unidos fizeram uma estreia histórica nos Jogos de Inverno com os esquiadores alpinos Piera Hudson e Alexander Astridge. Na mesma modalidade, duas nações africanas também celebraram sua primeira vez: Benin, representado por Nathan Tchibozo, e a Guiné-Bissau, com a participação de Winston Tang.
O drama de Lindsey Vonn: Aos 41 anos, a americana teve um retorno emocionante, mas doloroso. No dia 8 de fevereiro, durante a prova de downhill feminino, Lindsey Vonn sofreu uma queda impressionante, que já a custou 3 cirurgias.
Momento constrangedor: Durante a etapa de Biatlo, o norueguês Sturla Holm Lægreid conquistou a medalha de bronze, mas ao invés de focar apenas na alegria do pódio, Lægreid aproveitou a entrevista pós-corrida para admitir publicamente que havia sido infiel e pedindo perdão pelo seu comportamento, expressando arrependimento diante da audiência internacional. Enquanto alguns elogiaram a coragem de assumir o erro publicamente, outros acharam que o momento da celebração esportiva não era o local adequado para expor assuntos tão íntimos.
O “salto proibido” de Ilia Malinin: Na patinação artística, o americano Ilia Malinin, de apenas 21 anos, paralisou a arena ao executar um backflip, que foi proibido por 50 anos e liberado pouco antes da competição começar (1976- 2026), por ser considerado perigoso demais.
A pista de bobsled – do caos ao sucesso: Após meses de incerteza e críticas do COI sobre os atrasos, a pista de Cortina d’Ampezzo foi entregue dentro do prazo, mas nos 45 do segundo tempo, e está sendo elogiada pelos atletas. Foi uma vitória política do governo italiano, que insistiu em gastar aproximadamente 120 milhões de euros para manter a prova na Itália em vez de transferi-la para a Áustria ou Suíça, o que gerou muitas críticas.
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Combinado nórdico e sua barreira de gênero: A categoria que une o salto de esqui ao esqui cross-country permanece como a única modalidade em que as mulheres não podem participar. A proposta formal para a inclusão das mulheres foi rejeitada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para os Jogos de Milão-Cortina, repetindo a decisão tomada anteriormente para os Jogos de Pequim em 2022. A esquiadora americana Annika Malacinski expressou publicamente sua frustração em suas redes sociais, afirmando que a oportunidade olímpica lhe foi negada “não por causa da minha habilidade, mas por causa do meu gênero”, destacando o impacto dessa exclusão para as atletas da elite.
Parece mentira mas não é: A estrela do biatlo Julia Simon foi condenada em 2025 por fraude com cartões de crédito de sua colega de equipe, Justine Braisaz-Bouchet. Após admitir o crime e alegar lapsos mentais, a Federação Francesa de Esqui impôs uma suspensão de seis meses, sendo apenas 1 mês de suspensão efetiva e 5 meses de condicional, o que a fez perder apenas o início da temporada 2025/2026. Assim, ela retornou às competições e conquistou o ouro em Milão-Cortina.
Medalhas com defeito: Vários atletas reclamaram que as fitas das medalhas estão se soltando da parte metálica. A organização teve que pedir desculpas e prometeu reparos imediatos para os campeões desfalcados.
Dança no gelo sob os holofotes: A disputa pelo ouro entre EUA e França extrapolou os limites da pista e tornou-se palco de um embate diplomático-esportivo. Alimentada por controvérsias nas notas e questionamentos sobre os critérios, o que deveria ser uma celebração do esporte transformou-se em um debate acalorado sobre os limites entre a interpretação artística e a precisão técnica.
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Curling – cultura de confiança mútua: O curling viveu uma crise de integridade. Pela primeira vez, atletas não admitiram pequenas infrações, como tocar na pedra para ajustar sua trajetória, o que gerou acusações contra Canadá e Grã-Bretanha. A famosa técnica de varrimento Slow-Carve também foi proibida, e a World Curling precisou colocar árbitros em pista, rompendo com a tradição de confiar apenas na honestidade dos jogadores.
Polémicas no salto de esqui: A norte‑americana Annika Belshaw foi desqualificada da final do large hill feminino porque os seus esquis estavam 1 cm acima do permitido, apesar de ter conseguido um salto competitivo e se qualificado para a final. No dia anterior, o austríaco Daniel Tschofenig (um dos favoritos ao pódio), foi eliminado por usar botas 4 mm maiores do que as normas permitem, um erro que ele próprio classificou como um descuido num momento de grande pressão. Esses casos geram debate sobre como as regras e os detalhes técnicos podem influenciar fortemente os resultados nas competições.
Polémica no skeleton – apelo rejeitado e debate sobre expressão: O esquiador de skeleton ucraniano Vladyslav Heraskevych foi desqualificado dos Jogos após insistir em usar um capacete com imagens de atletas ucranianos mortos desde a invasão russa, violando as regras de neutralidade olímpica. Apesar de ter recorrido ao Tribunal Arbitral do Desporto (CAS), alegando que o gesto era uma homenagem e não uma mensagem política, o apelo do atleta ucraniano foi negado, confirmando que, segundo as diretrizes do Comitê Olímpico Internacional, a liberdade de expressão não se estende ao campo de competição.
Milão-Cortina 2026 já entra para a história por recordes, polêmicas, superações e inovações. Entre debates sobre regras, estreia de modalidades e primeiras medalhas para países inéditos, esta edição redefine o que significa competir nos Jogos de Inverno.