Aninha Dagostini: 13 anos de vida para 30 pés de onda — a miúda que desafia o Canhão da Nazaré

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Aos 13 anos, a brasileira Ana Gabriela Dagostini, mais conhecida por Aninha, é o mais recente membro do restrito grupo de surfistas que todos os invernos enfrentam o temível Canhão da Nazaré. Apadrinhada por Lucas Chianca “Chumbo”, surfou paredões de 30 pés na Praia do Norte no início da atual temporada, começando a escrever a sua história num dos palcos mais exigentes do surf mundial

Coragem como diferencial competitivo

A história de Ana Gabriela Dagostini começa cedo. Filha de pai surfista (o ex-profissional Benito Dagostini) e de mãe também surfista, cresceu entre pranchas, sal e viagens para surfar, longe da lógica comum das infâncias hiperligadas a ecrãs. Foi numa viagem em família que criou a sua primeira memória do que é deslizar sobre o mar em cima de uma prancha – o pai ao lado, uma onda pequena e um empurrão no momento certo. “Ele empurrou-me numa ondinha, eu fiquei em pé sozinha e adorei”, contou à Girls on Board. Tinha seis ou sete anos. O suficiente para perceber que a sua vida não seria mais a mesma.

Desde então, o seu percurso foi-se desenhando e sustentando nos elementos que criam os grandes surfistas: praia quase todos os dias, amigos que surfam, incontáveis horas passadas no mar. Hoje, com 13 anos, o seu currículo já inclui títulos nacionais (foi campeã brasileira sub-12), presença em provas do circuito de qualificação da WSL e registos das maiores ondas já surfadas por uma atleta júnior na Praia do Norte, na Nazaré, meca do big wave riding mundial. Quando questionada sobre o que a distingue das surfistas da sua geração, não fala de talento puro nem de técnica refinada. Fala de coragem.

“Eu acho que tenho mais coragem do que a maioria para surfar ondas grandes”, afirma sem hesitar. Uma frase curta, mas que explica tudo. A valentia de Aninha não resulta de um impulso irresponsável, mas de uma predisposição consciente para enfrentar o desconforto – seja ele físico ou emocional.

No surf competitivo, essa coragem traduz-se em vontade de arriscar, de entrar em mares mais pesados, de não recuar quando as condições apertam. Mas também se manifesta fora d’água, na forma como encara o crescimento gradual da sua carreira. Aninha sabe que está num processo. E respeita-o.

“Eu só tenho 13 anos e não tenho obrigação de ganhar nada”, diz, com uma descontração que contrasta com a pressão habitual colocada sobre jovens talentos. A única exigência maior surge nas categorias de base, onde admite querer conquistar o título nacional sub-14 em 2026. Não por imposição externa, mas por ambição própria.

Escola, treinos e uma rotina que não pára

Conciliar escola, treinos e competições é um dos grandes desafios de qualquer jovem atleta. No caso de Aninha, essa equação resolve-se com disciplina, apoio familiar e uma boa dose de autonomia.

Vai à escola todos os dias de manhã. Quando há competições, as faltas são justificadas através do regime desportivo. À chegada das viagens, não há pausa: estuda em casa, lê, recupera matérias. “Tenho a sorte de conseguir aprender rápido”, partilha, acrescentando que costuma dar-se bem nos testes e avaliações com relativa facilidade.

A rotina semanal inclui ainda treinos funcionais, aulas de inglês e surf quase todos os dias. É a mãe quem a leva para o mar, quem ajuda a organizar horários e quem garante que o equilíbrio entre educação e desporto não se perde. Não há romantização do esforço; há método. E talvez seja essa estrutura silenciosa que permite a Aninha manter os pés assentes na terra – mesmo depois de se ter tornado, na sua última passagem por Portugal, na mais recente estrela do clã do Canhão da Nazaré.

Praia do Norte: medo, mentores e uma queda violenta (e formativa)

Foi na Nazaré que Aninha Dagostini viveu algumas das experiências mais intensas do seu ainda curto percurso. Até então, as ondas gigantes eram imagens vistas à distância. Dentro de água, tudo muda.

“Eu sabia que aquelas ondas são enormes, mas lá dentro é completamente diferente”, garante. O medo apareceu – e ficou. Mas não sozinho. Veio acompanhado da vontade de se atirar aos paredões de 9 metros que se erguiam à sua frente. Uma sensação contraditória, física, difícil de explicar. “Era um sentimento muito louco”, conta, levando as mãos ao peito.

Para Aninha, o medo não é um inimigo a eliminar. É uma presença com a qual se aprende a conviver. “O medo vai estar sempre presente”, reconhece. O verdadeiro trabalho está no psicológico: não entrar em pânico, manter a calma, respirar, estar consciente. Este auto-controlo não surge por acaso. Aninha faz acompanhamento psicológico semanal e trabalha especificamente a gestão emocional. Sabe que, em ondas grandes, o desespero fecha possibilidades. A calma, pelo contrário, abre espaço para agir – e para sobreviver.

Na Nazaré, Aninha não esteve sozinha. Ela foi apadrinhada, desde o primeiro momento, pelos brasileiros Ian Cosenza e Michelle Bouillons, dois veteranos do Canhão, e especialmente por Lucas Chianca “Chumbo”, o seu piloto de tow-in. O contacto já vinha de trás – surgiu através de amigos da família, no Brasil, e foi-se consolidando com o tempo, entre surfadas, convívio e viagens. “Sem eles, nada teria acontecido. Temos uma amizade muito grande. Chumbo, Ian e Michelle são os pilares desse mundo que estou tendo a oportunidade de viver”, conta Aninha.

Foi pelas mãos de Lucas Chianca que teve a sua primeira experiência de ser puxada para uma onda por um jet-ski, há cerca de um ano, no Havaí. Chumbo viu capacidade, viu vontade, e não hesitou em incentivá-la. E isso fez toda a diferença. “Ele, os meus pais e toda a equipa ajudaram-me a acreditar que eu conseguia.”

Para além de Chumbo, com quem fez dupla de tow-in nas sessões de surf do Canhão, toda a comunidade das ondas grandes a acolheu bem na Nazaré, garante. Antes de entrar no mar, houve sempre orientação – avaliação das condições, conversas francas sobre o tamanho do mar, decisões partilhadas. Uma atenção constante e um sentido colectivo de responsabilidade. “Quando alguma coisa corre mal, todos ajudam.” Num ambiente onde o risco é real, a solidariedade não é opcional.

Nem tudo correu bem. Ao longo de vários dias, Aninha apanhou algumas ondas entre os 20 e os 30 pés, mas houve um momento particularmente difícil – quando falhou um resgate, levou com uma onda na cabeça e entrou em pânico. Teve de accionar o colete insuflável. Foi rápido, intenso e marcante. Mas também formativo. “Aprendi muito”, reconhece. Depois disso, os resgates seguintes correram melhor.

Sonhos grandes, passos conscientes

Apesar da experiência em ondas gigantes, Aninha é clara quanto às prioridades. O surf de ondas grandes, para já, é diversão. O foco principal está no surf competitivo. Quer ser campeã brasileira sub-14. Quer garantir uma vaga nos ISA World Surfing Games. Quer evoluir na Qualifying Series da WSL. E, quando fala do futuro mais distante, não hesita: quer ser campeã mundial.

Aninha Dagostini tem apenas 13 anos, mas fala como quem já aprendeu o essencial: o verdadeiro desafio de uma carreira no surf não está na altura das ondas, mas em saber esperar, decidir com calma e avançar no momento certo.

*fotos cedidas pela família de Aninha

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